Posted by : Shiny Reshiram 21 de nov. de 2025

Se existia algo que Juliana Rodríguez Garcia adorava fazer era acordar tarde após uma louca madrugada nas praias de Cabo Poco. O conforto da sua simplória cama caía sempre tão bem depois de uma aventura regada a licor na garganta e areia nos pés — principalmente se o relógio já marcasse as duas da tarde.

O quarto desarrumado lembrava um autêntico alambique, sendo a única diferença um Krokorok histérico com uma pá e esfregona em mãos, correndo de um lado a outro atrás de uma pequena Sandile, procurando manter a ordem no meio da barafunda instalada de roupas desarrumadas, lixo e poeira enfeitando o chão e a mobília. Juliana costumava sempre manter o seu espaço pessoal organizado dentro dos possíveis, mas bastava bater o dia um de Abril que — literalmente — esse seu lado de menina organizada parecia uma mentira em sua personalidade.

Os avôs paternos nunca se esqueciam dela. Pelo contrário, até enviavam as coisas cedo demais.

E ali estavam os antecipados presentes de aniversário aos pés da sua cama, no aguardo do dia vinte e quatro para serem desembrulhados. Chegaram na manhã anterior, como sempre, e Tolya já rasgara uma parte do embrulho brilhante de uma das caixas, mal contendo sua curiosidade. Tamar adotava a pose de guardião obsessivo do tesouro. Mesmo sabendo que Juliana nunca daria uso às ofertas depois de abertas, iria garantir que ninguém estragasse a surpresa. Só seriam abertas pela própria no verdadeiro dia do aniversário de Juliana e ponto final.

O Senhor Abílio e a Senhora Adelina enviavam sempre três caixinhas coloridas de laços extravagantes para a neta. Uma oferta individual de cada um, e uma terceira caixa que procurava ser uma escolha de ambos – tentativa fracassada de preencher um espaço vazio que há muito não existia. Juliana já avisara ambos no passado para não o fazerem, só pioravam as coisas naquela época do ano, mas eram teimosos e amavam demais a neta para lhe darem ouvidos. Um mimo extra era garantia, já que a neta nunca os ia visitar e muito menos atendia os telefonemas, e com a idade avançada a viagem se tornara longa demais para o velho casal.

— Juliana! Está na hora da aula! — ouviu de repente uma voz no outro lado da porta após umas salientes batidas.

A garota pressionou o travesseiro contra a face, soltando um ‘’Já vou, mãe’’ nada convincente. Não faria mal nenhum tirar mais uns cinco ou dez minutos extra no seu ninho para descansar da ressaca.

Talvez dona Haruka não fosse se importar, pois significava mais um tempo extra dedicado à Padaria Sonhos de Daschbun. O tempo da Quaresma era uma das épocas mais atribuladas do ano para o negócio, ao lado da passagem de ano e Natal. Foram inúmeras vezes em que as aulas em casa haviam sido adiadas ou canceladas porque a famosa padeira de Cabo Poco tinha uma ou duas novas encomendas a fazer no meio de tantas.

Aos cinco anos de idade, o dia de Páscoa havia calhado no mesmo dia do aniversário da menina. Juliana não se recorda muito da ocasião, mas pelos rumores, fora uma desgraça, com a mãe quase se esquecendo de um bolo para a filha no forno e um princípio de incêndio na cozinha. Em outros anos, a mulher já chegara a enviar o bolo de aniversário acidentalmente a um cliente, dentro de uma das caixas de encomendas, um erro que ia contra qualquer precedente, o que intensificava seu lado perfeccionista.

As batidas na porta tornaram-se mais persistentes.

— Juliana! Eu não tenho o dia todo! Queres aproveitar a minha pausa ou não?

— Não… — E limitou-se a virar a cara para o lado após entregar a resposta, ainda com a almofada sobre toda a cabeça, salientando o peso dos cobertores que também lhe tapavam o corpo inteiro. Só um minúsculo buraco entre as ondas de tecido a adolescente usava para respirar.

Sentiu a maçaneta da porta a girar, mas havia trancado-a quando se deitou para não ser incomodada e para a mãe muito menos ver a perdição de confusão que ocorria por todo o chão do quarto.

Haruka soltou um suspiro de frustração quando tentou girar a maçaneta outra vez, em vão.

— Minha menina, não me obrigues a estragar a porta outra vez!

— Mãe. Deixa-me dormir!

— São quase três da tarde! Não sais-te desse quarto. Não comes-te nada o dia todo.

— Não preciso de comer para dormir.

— Já deste sequer comida a Tolya e Tamar?

Juliana desviou brevemente a almofada para o lado, olhando na direção da taça de comida e caixa de areia de seus Pokémon localizada nas proximidades. Tamar era um bom mordomo que deixava as coisas tanto organizadas ao ponto de saber cuidar de si e outrem. Entre tudo, era a única área do quarto que ele estava a conseguir manter impecável.

A adolescente voltou a cobrir a cabeça com a almofada, e a resposta saiu, mais uma vez, abafada pela massa de espuma.

— Eles desenrascam-se.

— Sim, e também precisam de apanhar ar puro. Um banho de terra faz bem a eles, afinal são Pokémon terrestres, apesar de eles se darem bem na escuridão. Tens a certeza que eles ai dentro não estão pressionados?

— Humm…

Tolya não parava com as tentativas de assaltar as prendas de aniversário. As humanas as podiam ter simplesmente escondido num canto qualquer, longe de tamanha curiosidade. A diferença é que a irrequieta Sandile descobriria ao explorar todos os cantos da casa, e iria destruir tudo quando ninguém estivesse a olhar. Era melhor assim, com Tamar de guarda constante, sacrificando a higiene do quarto para correr constantemente atrás da irmãzinha rebelde. A paciência do Krokorok estava por um fio.

— Espero que o quarto esteja limpo... — sentiu a mãe cruzar os braços, ao encostar todo o corpo na porta.

Uma subtil ameaça.

Silêncio.

A adulta esfregou as têmporas.

— Andas-te no álcool outra vez? — Voltou a ouvir a voz da mãe, ameaçadora do outro lado.

A adolescente manteve o silêncio. Uma das suas velas aromáticas ainda queimava nas proximidades, quase a terminar o pavio, mas nem isso impedia o olfacto apurado de Haruka em identificar o veneno que a filha ingeria quase todas as noites. Era um perigo encontrar-se acesa com os constantes pulos de Tolya e Tamar de um lado a outro, mas em sua mente deambulavam questões maiores.

— Não negues, eu sinto o cheiro daqui. Eu não sei quem vende essas coisas a menores de idade e muito menos onde arranjas já que o stock da nossa loja está intacto, mas quando eu descobri tu vais ter problemas… Oh, se vais! — E pelo tom de voz, era claro que a mulher já estava igual o Krokorok, pelos seus limites.

Juliana soltou um suspiro, levantou-se devagar para evitar tonturas, mas, principalmente, problemas maiores com mais uma briga indesejada entre ela e progenitora, algo que era comum com bastante frequência e podia atingir níveis feios.

Dirigiu-se até a porta, girou o trinque, abrindo-a muito a contragosto e recebendo o olhar de reprovação da mãe, a analisando de cima a baixo.

— Olha só o teu estado… — Começou, antes de ser interrompida.

— Eu sei, eu sei que eu devia ter vergonha, tomar banho mais vezes, e mais blah, blah, blah… Bom dia também para ti. — Falou, não deixando a progenitora continuar.

— Correção: Boa Tarde, Juliana — Haruka emendou-a, para sua insatisfação.

— Podemos lá despachar isto? Tu não tens uma lista de coisas infindáveis na padaria para fazer? Pois olha que eu também tenho.

— Espero que arrumar e aspirar esta espelunca seja uma dessas tarefas — a mulher espreitou por cima do ombro da filha para o interior do quarto que mais lembrava um lixão. — Eu já te disse, tu és melhor do que isto.

As olheiras negras e cabelo desgrenhado não negavam o nível da louca aventura nocturna que a jovem havia vivenciado. Juliana revirou os olhos e colocou-se em marcha, em direção à sala de estar pacata da casa, que ficava no fundo do corredor.

Haruka moveu a cabeça ligeiramente para o lado, agarrando uma Sandile pela cauda, que tentava escapulir-se entre suas pernas para seguir a treinadora e, consequentemente, ir a caminho da sua liberdade. Se Tamar a seguisse, ela iria conseguir desnorteá-lo nos corredores da casa ao ponto de ter tempo suficiente para voltar ao quarto e rasgar os embrulhos para saciar a curiosidade. Uma pena que seu plano maquiavélico fora cancelado cedo demais.

A pequena crocodilo arregalou os olhos, e manteve-se muito quieta enquanto era elevada no ar pelo braço forte da humana. Odiava ficar de cabeça para baixo assim, pendurada que nem umas calças num estendal.

— Eu sei que tens fornecedores, sua safada. Tens sorte eu não ter provas suficientes… Mas quando eu descobrir quem te dá as bebidas, podes ter a certeza que tu só não vais junto para a prisão porque és um Pokémon, e sem ti, aí é que a Juliana se meteria mesmo em coisas piores. — Haruka falou para Tolya, que assoprava em resposta, com os dentes arregaçados. Depois encarou Tamar, que, obediente e educado como sempre, apressou-se a fazer o pedido que se seguiu. — Vou levar a Tolya para o seu castigo e ela deixará de te ser um problema, pelo menos, para já. Apressa-te a arrumar o quarto e depois vai para a cozinha. Temos muito a fazer lá em baixo.

Sim, minha Lady Senhora Mãe da Juliana — e Tamar realizou uma vénia educada.

Quando ela disse castigo, ela quis dizer que me vai prender outra vez à perna daquela avestruz sardenta? — Tolya não estava nada satisfeita.

Não é como se não merecesses. A Cleo é a melhor Espathra pra te por na linha — Tamar sorriu, triunfante, já a dar uso a seus materiais de limpeza.

Tamar sabia que Cleo era intensa quando queria e quando era necessário. Tolya odiava-a tanto do mesmo modo que Cleo detestava servir de baby-sitter. Só o fazia porque sabia que a recompensa seria bastante satisfatória no final. Era impossível negar uma fatia de bolo red velvet no fim de cada sessão exaustiva de cuidar da Sandile rebelde. Haruka sabia mais que ninguém que seus Pokémon eram excelentes mentores, e nada melhor que fazer os Pokémon da sua filha passarem um bom tempo ao lado deles.

Mas ela é tãoooo chata… — Sandile soltou um resmungo de aborrecimento enquanto Haruka caminhava com ela em mãos. No outro lado do corredor, já a descer as escadas em direção à cozinha da Padaria, ainda se sentia os seus queixumes infantis.

Cerca de vinte minutos depois, Haruka regressou à sala de estar, para encontrar uma Juliana ensonada com uma cara enterrada num livro, sentada em seu cadeirão favorito.

A televisão estava ligada, passando imagens aleatórias das novelas favoritas da mãe, mas a adolescente mal tivera noção em mudar de canal para algum dos seus canais predilectos de vídeo-clipes de músicas, tão tonta se encontrava. Por outro lado, era provável que tal não fosse possível, pois do comando remoto, nem sinal dele por cima da mesa de centro da sala, onde geralmente se encontrava.

— Terminaste o ensino Primário há quatro anos — ela abriu um olho ao ouvir a mãe dizer aquilo, assim, simplesmente, do nada.

— Essa conversa de novo? — sua voz saiu rouca.

Haruka pigarreou.

— Vai chegar uma altura que eu não vou ter mais o que te ensinar.

— Não quero saber. Não quero voltar para a escola.

Mais silêncio.

A mulher dirigiu-se a uma das muitas estantes que se estendiam pelas paredes, passando os dedos por todos os livros que lá se encontravam. Uma a uma a ponta do indicador roçando nas lombadas. A maioria eram manuais antigos e enciclopédias, existia sempre alguma coisa nova a descobrir no meio daquelas páginas de conhecimento. Porém, ter acesso ao material era uma coisa, ter a capacidade de ensinar esse mesmo material e o filtrar era outra, principalmente se tivermos em conta as dificuldades de Juliana como aluna.

Bem no fundo, Haruka sabia que, por muito que tentasse, a situação com a filha não podia continuar assim. Juliana era uma cabeça oca que necessitava de mentores a sério. Profissionais capacitados para lidar com ela.

— Já vimos quase tudo o que temos por aqui. Só nos resta olhar a Internet, onde encontramos tudo e mais alguma coisa de graça. Mas eu não gosto, pois Internet é sinónimo de imensas distrações… Principalmente para ti. E haja dinheiro para papel e tinteiros para imprimir tudo o que eu desejar.

— Sim, eu sei. As tuas novelas já são chatas o suficiente — ela resmungou, torcendo o nariz de nojo ao fitar o enorme televisor que cobria a parede.

— Sim, uma excelente maneira de te deixar concentrada no que eu quero que estudes — a mulher realizou um sorriso no canto da boca.

Quando um adolescente estuda, até olhar as paredes costuma ser mais interessantes que as letras do texto do material em si. Mas no caso de Juliana, era bem melhor tomar atenção a um caderno, tirando apontamentos sobre ciências naturais ou realizando cálculos matemáticos, do que olhar dramas de novelas ou bulhas entre concorrentes de reality shows. Aquele tipo de conteúdo era uma tortura para ela.

Em certo momento, Haruka respirou fundo, preparando-se para a derradeira revelação, e removeu uma folha do bolso, desdobrando-a.

— O Senhor Abílio e a Senhora Adelina ofereceram-se para me ajudarem a pagar os teus estudos. Eu rejeitei.

— Outra vez isso? Que bom! — Juliana não escondeu a felicidade.

Felicidade esta que durou pouco tempo, pois a informação seguinte lhe caiu como um raio.

— Em Setembro vais para a Academia Naranja e Uva. Eu vou matricular-te este verão.

Um “O QUÊ?” foi solto mentalmente, mas Juliana sentia-se tão tonta que apenas limitou-se a voltar a deixar a cabeça cair no meio do seu livro, com um estalo poderoso. Foi sorte se ela não ficar com a testa negra.

— Eu. Não. Quero. E com tantas escolas em Paldea… Logo essa?

Levantou a cabeça, somente por Haruka ter enfiado a mão entre seu cabelo solto, puxando-lhe pela orelha com força tal que a mesma ficara vermelha. Podia ser que tal golpe chama-se a filha à razão. Um gesto que a mãe ansiava imenso realizar desde a altura que viu o filme de terror nos aposentos da pequena, e apesar de não gostar de bater em Juliana, tomara coragem para realizar o ínfimo castigo corporal.

— Au! Larga-me! Já não sou criança nenhuma! Para!

— Eu ainda cortei custos na Padaria e poupei uns trocados nos últimos meses para ter dinheiro suficiente para as propinas e é assim que me agradeces? A Academia Naranja e Uva é a melhor e mais prestigiosa escola de toda região de Paldea, para não falar uma das mais famosas no mundo. Nem todos tem a oportunidade que eu te vou dar!

— Aquele edifício grandão de Mesagoza? Parece tão velho e chique que qualquer dia cai. Frequentar aquilo parece mais chato que as tuas novelas da tarde!

E soltou a orelha da adolescente, mas seu discurso continuou.

— Eu estudei durante muitos anos naquela escola e foi uma das melhores experiências que eu tive na minha vida. Também quero que tenhas isso para evoluíres como pessoa. Ficar sempre aqui, fechada em casa, não te faz nada bem!

— Engraçado que eu sinto o contrário. Sair de casa é prejudicial para minha saúde.

— Eu sei, Juliana, que a tua bateria social é fraca. Mas vais fazer um esforço, sim? Tens que assumir responsabilidades. Além disso, ainda estamos em Abril. Tens o ano inteiro para te despedires de casa a mandriar.

— Obrigada pela parte que me toca — Juliana, agora livre do dedo da mãe na orelha, não parou de esfregar a área, para não a sentir tanto dolorida.

— Vais negar que és preguiçosa agora? Enfim… Eu tratarei de toda a burocracia e tu não precisas de mexer nem um dedo, além de dar uma melhorada em teu comportamento. Eu juro que não vou andar sempre em cima de ti para sempre. Ai de ti se chegares atrasada algum dia!

— Está bem, mãe. Já entendi. Já ouvi essa mesma conversa milhares de vezes.

— Só quero me garantir que ela fica bem entranhada na tua cabeça… Agora diz-me, o que é que queres para o teu aniversário?

Juliana piscou os olhos ensonados. A realidade bateu na sua cabeça. Estou quase a completar dezassete anos. Boa. Mais um e posso ir oficialmente para a cadeia… Mas pelo menos, estou livre no consumo de minhas bebidas predilectas.

— Não precisas de te preocupar, podes te esquecer dele, igual ocorre em outros anos. Não quero nada. — Foi o que acabou por dizer.

— Para começar, eu nunca me esqueço. Tu é que te enfias sempre vinte e quatro sob vinte e quatro horas na cama e a Tolya come o bolo todo antes de tu apareceres. Mas este ano, não queres mesmo nada, nem sequer algum bolo? Algum pudim? Outro tipo de guloseima?

A garota encolheu os ombros.

— Eu não quero celebrar meu aniversário. Nunca quis. Não quero bolo nenhum! É assim tão difícil compreenderes isso?

A mulher soltou um longo suspiro contido que há muitos minutos aguentava.

— Quantas vezes eu tenho que te dizer que devíamos celebrar! Nos livramos daquele homem, devia ser uma comemoração por eu ter tido coragem de assinar a papelada do meu divórcio e denuncia-lho. Não devia ser um velório!

— Isto talvez seja fácil para ti, mãe. Sabes perfeitamente que, no meu caso, é mais complicado. Eu perdi tudo.

Mais outra onda de silêncio. Uma pausa carregada encheu o ar. O bom e saliente silêncio, somente quebrado pelo barulho das imagens do televisor entrecortado com o som do ar condicionado e o borburinho típico de restaurante — talheres e pratos a terlintar vindos do andar de baixo da casa.

Haruka sentou-se, cabisbaixa, no sofá. A distância que existia entre ambas não era apenas o vão físico, encontrado entre aquele espaço e o cadeirão.

Acabava por ser algo mais.

A mulher procurou esboçar um sorriso. Era muito difícil lidar com a situação enquanto memórias longínquas ainda deixavam um sabor amargo na boca. Algumas eram tão complexas que ficava difícil acreditar que realmente aconteceram, e não eram nenhum produto das fantasias da imaginação.

Com a voz engasgada, Haruka acabou por soltar.

— Juliana, estou aqui, não me perdeste. E se estás a te referir à Eurene, foi um acidente. Eras apenas uma criança… Brincando com outra na hora, local e momentos errados. — E a quietude da outra fez Haruka prosseguir o diálogo. — Quem teve a verdadeira culpa fui eu! Estava tão ocupada que não vos prestei atenção! Tu não devias te cruxificar tanto!

Já não conseguia ouvir mais. A garota levantou-se de rompante, deixando seu manual escolar e seus cadernos caírem ao chão, com um estrondo e uma chuva de papelada esvoaçando e enfeitando vários metros de distância.

— Nunca me vais conseguir compreender! — Quase gritou, deixando a porta a bater com força atrás de si depois de sair a uma velocidade surreal.

De volta ao quarto, de volta a seu buraco escuro onde tinha a certeza que não iria magoar mais ninguém.

Antes de regressar ao trabalho, Haruka ainda ficou muito tempo ali, fitando o espaço vazio que Juliana ocupara havia poucos minutos antes. Se existia alguém que realmente compreendia, era ela. Mas por que é que era tão difícil mostrar isso? Seriam os conflitos de personalidade entre ambas? Sabia que tinha que ter calma com ela, mas a realidade é que Juliana levava as coisas a um lado tão extremo que tal parecia impossível.

Encostou as costas no sofá e ficou olhando para cima, num gesto meditativo.

Tudo começara graças àquele maldito acidente que assombrava tanto Juliana. Santiago Garcia ficou um homem completamente diferente — mais violento — depois de tamanha perda. Por vezes, Haruka não sabia como conseguia ser tão insensível. Talvez porque, para começar, não era suposto Eurene ter existido. Juliana era próxima demais do progenitor na época, e, do nada, aparece outra criança roubando as atenções? É claro que ela iria crescer frustrada!

Bem no fundo, Haruka estava a ser egoísta. Ela sabia disso.

Mas como não ser quando o ex-marido, do nada, aparecia com uma filha de outra mulher, que nem ele próprio sabia que existia?

Haruka sacudiu a cabeça e desviou aquelas estúpidas e amaldiçoadas memórias. Levantou-se e partiu em direção ao andar de baixo da casa. Precisava se distrair urgentemente e nada melhor que sacrificar suas duas horas de pausa para afundar-se até o pescoço em limpezas e mais tarefas da Padaria para se saciar, evitando levar as lembranças mais além da ponta do iceberg.

O quintal da casa também tinha uma ou duas ervas daninhas entre os canteiros de flores que precisavam de ser removidas urgentemente, antes de ficarem maiores ao ponto de matarem a raiz das suas plantações. Talvez uma boa jardinagem cairia bem naquele dia, enquanto deixava tudo a cargo dos seus Pokémon. O cheiro de terra fresca e plantas era um aroma bem terapêutico para a alma.

Mas as ideias mudaram abruptamente quando chegou à cozinha, dando de caras com o caos ali instalado.

TIRA-A DAQUI! TIRA-A DAQUI! — choramingava um Pokémon de corpo longo e esguio, a correr de um lado a outro. Haruka fechou a cara ao ver que, em pouco tempo de sua ausência, a cozinha inteira ficara igual ao quarto de Juliana em termos de desarrumação e destruição.

Danny, um enorme Dudunsparce de três segmentos que mal cabia nos corredores entre bancadas, corria de um lado a outro, batendo com o enorme lombo em tudo o que era lugar, uma tentativa desesperada de livrar-se da Sandile agarrada a uma das suas asas com a mandíbula. O restante dos Pokémon tentava acalmar o matulão, sem sucesso. Pratos e utensílios de cozinha não paravam de cair dos espaços onde se encontravam arrumados devido a mini terramotos que o corpo enorme do Pokémon causava a cada impacto. Muitas das encomendas já haviam sido destruídas num prejuízo de incontáveis Pokédollars.

— Sério mesmo que eu não posso sair daqui que tudo se descontrola? Onde está a Cleo? — a pergunta da humana recém-chegada soou no ar, intimidante ao ponto de todos se imobilizarem, devastados.

Uma pequena massa flutuante conhecida por Milcery apontou inocentemente para um dos cantos da cozinha, onde uma avestruz jazia, caída no chão, ao lado de uma frigideira tombada. Um Pokémon humanóide conhecido por Tsareena abanava um papel em forma de leque, na tentativa desesperada de despertar a avestruz que ali havia desmaiado depois de levar um golpe forte na cabeça.

Haruka aproximou-se rapidamente dela. Existiu uma época em sua vida que ela estudara enfermagem Pokémon, mas os planos, sonhos e ambições mudaram drasticamente com os anos, e a vida a levara para um rumo completamente diferente. Portanto, sabia o que tinha a fazer em casos de primeiros socorros. Removeu do bolso um spray de Poção Especial para urgências que esguichou no bico da Espathra. Em poucos minutos, ela não tardou a despertar graças ao cheiro forte.

O que raios aconteceu? Por que minha cabeça tá doendo? — Cleo olhou para todos os lados, atordoada. Depois, fitou Jade, a colega a seu lado. Piscou em breves instantes os seus grandes olhos azuis. — Eu… Morri?... Mamã? És tu?

— Eu quero todos de volta ao trabalho! Por amor à Arceus! — exclamou Haruka.

A mulher agarrou o Dudunsparce pela enorme cabeça e tocou em um nervo específico debaixo do queixo do Pokémon, fazendo o enorme matulão imobilizar-se e cair.

Antes de ter qualquer chance de escapar, voltou a agarrar a Sandile pela cauda, sacudindo-a com força em pleno ar.

— És mesmo um íman de problemas, não é mesmo, sua maldita? Tu e a Juliana fazem mesmo um belo par! Até tenho pena do Tamar por cuidar de vocês dois sozinho a toda a hora!

E apressou-se a sair da cozinha, em direção ao quarto da filha. Abriu a porta com um pontapé forte — se a mesma estava, ou não, trancada, agora era difícil descobrir graças à maçaneta que se havia quebrado entre as lascas de madeira que voaram após o golpe.

Juliana encontrava-se, novamente, debaixo do aconchego dos seus cobertores suados, enquanto Tamar terminava de varrer o chão com a vassoura, mais aliviado por a ordem dentro daquele aposento ter sido restabelecida, mesmo que temporariamente.

Ao sentir o estrondo da porta, só teve tempo de olhar para cima, com espanto, e levou logo com uma pequena Sandile no meio do focinho, que Haruka havia atirado em sua direção com imensa frustração.

— TAMAR? SERÁ QUE ÉS MESMO O ÚNICO QUE CONSEGUE BOTAR ESSA PEQUENA GIRATINA NA LINHA? E JÁ AGORA, DESCULPA ESTAR A GRITAR CONTIGO! TU NÃO TENS NOÇÃO DO CAOS QUE ESTÁ LÁ EMBAIXO NA COZINHA!  E EU TENHO QUE LEVAR A CLEO AO CENTRO POKÉMON! E ESTÁ TUDO ATRASADO!

O pobre crocodilo encarava a humana piscando os olhos sem compreender nada, enquanto a Sandile, presa em seus braços, mordiscava os seus dedos e não parava de assoprar, tentando escapulir-se para pular na direção do seu objetivo: destruir a prendas de aniversário, localizadas a preciosos centímetros de distância.

Vá lá! Deixa-me ir ver uma coisa naquelas prendas!

Não vais, não! – grunhiu Tamar, frustrado pelos seus minutos de paz terem terminado abruptamente. — Eu sei bem o que esse teu ‘’ver’’ significa! Não vais rasgar aqueles presentes, nem que eu caia morto por um tiro!

Então, Tamar! Só quero confirmar uma coisa! Eu tenho certeza que as caixas estão vazias. Não fizeram barulho algum quando a Jade as deixou cair quando as trouxe ontem.

Para começar, ela é uma Tsareena demasiado delicada para esse percalço. Segundo. Para com desculpas esfarrapadas. Eu sei bem quais são as tuas intenções! Não vais abrir esses presentes!

A mulher, depois, dirigiu-se até o espaço da filha, removendo todos os cobertores dela, e fazendo-a a garota cair no chão num estrondo, por se encontrar embrulhada que nem um casulo no meio dos lençóis.

— Mãe. Que gritaria! Podes-te calar?!

— POR ARCEUS! JULIANA, PRENDE ESSA MALDITA NA POKÉBALL E NÃO A DEIXES SAIR MAIS PELA CASA HOJE!

— E por que caralho o Tamar não a deixa abrir aquelas caixas? —  Juliana, ainda no chão, colocou os cobertores por cima da cabeça. — Problema resolvido. Não é como se eu me importasse. Nunca gosto do que eles me costumam oferecer pelos anos mesmo.

Tanto Haruka como Tamar olharam incrédulos para o amontoado de cobertores no chão.

Pela primeira vez naquele dia, Juliana mostrara um ponto completamente válido.

— Tens a certeza? — A voz de Haruka amansou. Pouco a pouco, ficou claro que ela própria também parecia curiosa. — Quer dizer… Se for outro daqueles perfumes que tu não gostas e eu acabo sempre por usar… Bem… Eu não tenho falta agora. Um dos de ano passado, ainda tenho um frasco cheio.

Mas, minha treinadora, dizem os costumes humanos que abrir presentes e desejar parabéns antes do dia costuma entregar azar a quem o faz. — O Pokémon apertou mais Tolya em seus braços, que parecia ansiosa por ver que o rumo da conversa iria levar mesmo à concretização das suas vontades. Tamar era deveras um Krokorok bastante supersticioso.

— Não é como se eu já não fosse uma azarada, Tamar — pelo movimento dos cobertores ao soltar a voz abafada, era claro que esta se encontrava deitada em posição fetal. — Deixem a Tolya fazer o que ela quiser e parem lá com essa barulheira toda.

Ordens eram ordens. A Sandile estufou o peito, orgulhosa, quando o Krokorok incerto obedeceu o desejo da treinadora, a pousando no chão. Com a boca aberta, dentes afiados, prontos para rasgar e mastigar, Tolya atirou-se aos três presentes de aniversário num súbito salto.

Das três caixas, começou pelas duas maiores. Um rasgo aqui, e outro acolá, lá revelavam a caixa de papelão interior, deixando o outrora chão impecável sujo de lascas de papel de embrulho, que nem pegadas de terra sujando o azulejo e os tapetes de uma ponta a outra.

Eu sabia, está vazia! — Anunciou Tolya ao mundo, ao terminar de abrir a primeira caixa.

O Krokorok evitou olhar para o interior da caixa de papelão, por tal parecer mal-educado, mas a exaltação na voz da Sandile venceu.

Ele próprio espreitou o interior, para o confirmar, com uma nova onda de curiosidade.

Está vazia… Está mesmo vazia — Tamar certificou-se. Mal podia acreditar. Estava disposto a dedicar tanto tempo e garra a proteger aqueles presentes para, no final das contas, chegar o dia vinte e quatro e os mesmos acabarem com um vazio decepcionante no interior.

— Está vazia? O quê? Não tem nada dentro? — Juliana pareceu despertar por completo, removendo rapidamente as ondas de lençóis que a cobriam e correndo até o local onde as caixas se encontravam empilhadas.

— Como assim está vazia? Vocês têm a certeza? — Haruka, que se aprontava para sair do quarto e já se encontrava ao lado da porta, acabou por voltar a dar meia volta com o objetivo de contemplar aquela surpresa estranha.

Juliana acabou por agarrar a outra caixa grande. Quando a abriu, não houve surpresas. Agora jazia duas caixas vazias aos seus pés.

— Que tipo de jogo aqueles velhinhos idiotas andaram a tramar? Será que houve algum problema nos correios? — Haruka começou a questionar-se. — Não… É impossível. A encomenda chegou completamente selada.

— Talvez eles se esqueceram de colocar a prenda no interior. Eu… Eu não sei. — Juliana encolheu os ombros, já procurando a terceira e última caixa entre o lixo de papel de embrulho desfeito.

O Senhor Abílio e a Senhora Adelina nunca iriam se esquecer de tamanho dia importante… Pois não? A folha que Haruka assinara ao carteiro e seu Dragonite, para confirmar ao remetente a chegada da encomenda ao destinatário, indicava que era realmente uma encomenda vinda diretamente de Porto Marinada. A murada, os nomes, encontrava-se tudo dentro dos conformes.

Tamar começou a procurar entre as folhas, enquanto Juliana mantinha a pequena caixa em mãos.

Não podia ser. Alguma coisa se encontrava muito errada.

Seus avôs enviavam sempre qualquer coisa.

Um envelope com vários Pokédollars que Juliana gastava no seu abastecimento secreto de bebidas alcoólicas com Tolya era a esperança que Tamar tinha ao procurar no meio da barafunda. Até a própria Tolya o ajudava, esfregando o focinho que nem um Lechonk entre as folhas.

Na maioria dos casos, a oferta continha perfumes que ela nunca iria usar, pijamas bonitos que, mal por mal, apesar de cores pirosas e extravagantes, a garota acabava sempre por vestir. Em alguns casos, até cordas novas para sua guitarra e alguns desinfetantes especiais que iriam proteger a madeira, pois seu avô também fora músico em tempos e sabia da paixão da neta mais que ninguém. Diários novinhos para ela anotar suas canções também se tornavam conteúdos comuns nos últimos anos.

O mesmo padrão se repetia na época Natalícia. A encomenda chegava cedo demais. Ou era dinheiro, ou pijamas, ou perfumes, ou packs de higiene clássicos com desodorizante, champô e gel de banho, creme hidratante…

Juliana chocalhou a pequena caixa. Dentro dela, jurou sentir qualquer coisa, apesar de, tal como as outras duas, continuar leve que nem uma pena.

Fitou a mãe com descontentamento, que havia se ajoelhado ao seu lado.

— Tem que haver algum motivo para isto… — Começou Haruka. — Talvez dentro dessa caixa exista algo.

A terceira caixa era algo que Juliana acabava sempre por descartar sem nunca abrir.

Mas naquele caso, a curiosidade falou mais forte.

Puxou o laço encarnado brilhante por uma das pontas, o mesmo desfez-se, libertando o papel de embrulho de suas correntes, facilitando a sua remoção. Apesar de mais pequena, a caixa mantinha o mesmo tom de papelão das outras.

Nada de novo e suspeito até ali.

Mas tudo mudou no momento que Juliana abriu suas abas, dando de cara com um papel dobrado em duas metades, bem no fundo escuro da caixa.

Uma carta.

Uma carta escrita com muito amor.

– O que será que diz?... – Começou Haruka, afastando-se um pouco para dar à filha a devida privacidade.

Juliana, sob a luz serpenteante de sua vela aromática, sentou-se na beira da sua cama, ao lado da mesa-cabeceira, para iniciar sua leitura.

A letra em português foi difícil de interpretar ao início, principalmente depois de passar tanto tempo a ouvir e a ler coisas somente no bom e velho espanhol.

Mas logo ela se acostumou ao ritmo, pois pouco a pouco, se recordava da maneira certa de decifrar a letra bonita do seu avô e o tom suave de sua avó.

 

Abril. Águas Mil.

O velho ditado Porto-Marinense nunca antes pareceu tão real aqui na nossa pacata e vazia casa à beira-mar. É curioso o quanto a tristeza é sempre relacionada com a chuva. Sabemos que contigo ao longo deste mês, minha neta, é igual. Mas fica sabendo que não estás sozinha nas ondas da dor e nas encruzilhadas da jornada.

Olhamos o horizonte, respiramos o ar salgado da maresia, e pensamos… Será que, se algumas coisas tivessem acontecido de maneira diferente, o rumo da nossa vida teria sido igual? O que será que existe para lá daquilo que o mar nos mostra?

A dor da perda é difícil de superar, principalmente nas horas em que se percebem que fazem anos que ocorreu. Mas tu, Juliana, também tens que pensar: HYAY! Faço dezassete anos! Só mais um ano e lá vem os dezoito! A vida adulta começando oficialmente! Um ano passa mais rápido do que aquilo que se julga. Nessa altura, poderei sair de casa e viver sozinha, poderei ir votar, namorar à vontade sem ninguém me julgar por ser menor de idade, e, se eu fizer alguma merda mais grave, posso ir presa! Hahaha!

(A tua avô quase não me deixou acrescentar e escrever esta parte da carta, mas eu editei a mensagem antes dela reparar. Não lhe contes nada, está bem? Fica nosso segredinho! Ela discutiu comigo, dizendo que dezoito anos não muda nada na vida a ninguém. Mas que palavras chatas as dela, não é? Eu cá acredito que, todos precisamos apenas de um incentivo para pensar positivo. Vai lá para fora aproveitar a juventude e diverte-te, rapariga! Qualquer idade é um marco que deve ser celebrado!)

Deves ter ficado surpresa por estas caixas este ano terem vindo vazias. A verdade, é que nós os dois não sabemos mais o que te oferecer, pois já te demos de tudo o que pudemos pensar. Já deves estar tão grande, tão crescida… com gostos completamente diferentes daqueles que nos lembramos vindos de ti. Não largas-te a música naquela velha guitarra, pois não? Ela liga tudo o que resta da nossa pequena família.

Então, tal como o poder da música, este ano nós os dois decidimos entregar-te algo que só possas conseguir receber com o coração. Sentir.

Lembras-te daquele filme com dinossauros que tu gostavas tanto em miúda? Ainda temos a VHS aqui em casa, e nós os dois reassistimos o filmes estes dias, lá na velha e grandona TV que só funciona às mil pancadas, só para te voltarmos a dizer a mesma frase do filme:

Deixa o teu coração guiar-te. Ele sussurra, por isso, ouve-o com atenção.

Algumas palavras fazem melhor sentido em certas fases da vida. Incrível como histórias são quase imortais se as virmos por esse ângulo, não é?

Sabemos que possivelmente ignoras-te e deitas-te fora esta mensagem. Mas a escrevemos na mesma, com fé em Arceus que a mensagem chegaria a tuas mãos de alguma maneira e que a lerias, pois nós os dois te amamos mais do que qualquer outra coisa em nossa vida.

Reconhecemos que a nossa casa carrega demasiadas memórias para ti, mas por favor, se um dia decidires passar por perto de Porto Marinada, vem fazer-nos uma visita.

Nós sentimos mesmo a tua falta. Ou, pelo menos, devias atender os nossos telefonemas.

Eu e a tua avô não iriamos aguentar uma viagem longa para te ver em Cabo Poco, infelizmente, e tu sabes bem o infortúnio da última vez que tentámos.

E nesta carta, não cabe tudo o que queremos te dizer. Por mais palavras que existem, muitos sentimentos não se podem expressar.

Oh, por Arceus, olha só como esta carta já está longa! Qualquer leitor já deve estar a dormir a esta hora!

Antes de concluir… Só vamos acrescentar: Acreditamos que não existe presente de aniversário melhor neste mundo do que um beijo e um abraço. Já que algo físico e palpável parece uma realidade distante, neste momento, quero que saibas que foram imensas as vezes que agarrámos esta carta junto ao peito.

Pode ser que assim, indiretamente, consigas receber todo nosso amor.

Falando em beijos e abraços, tenta abraçar a senhora Haruka mais vezes. Ela é a tua mãe e uma mulher forte e maravilhosa, que cuida muito bem de ti, sempre pronta a se sacrificar por tudo. É o teu aniversário e, afinal das contas, também é um dia para ela, pois ela é que te carregou em seu ventre e sofreu imensas dores para te trazer a este mundo. Foste um presente muito desejado dela, devido às suas dificuldades em conceber. Nem todas as pessoas que nascem tem essa mesma sorte. Já existem desgraças suficientes neste mundo, todos precisamos de pequenas ideias e palavras de conforto que nos façam sorrir.

Por favor, vocês são duas grandes guerreiras. Superaram as dificuldades com garra! Neste Abril, por favor, esqueçam a desgraça e celebrem os vossos triunfos juntas. Assim, a água das chuvas parecerá menos gelada.

 

Com muito amor.

 

Dos teus avôs paternos,

Abílio & Adelina.

 

Não evitou sorrir quando leu algumas partes, pois julgou sentir o tom de voz rouco de cada um deles a murmurar aos seus ouvidos. Também imaginou-os a observar o oceano no topo do farol lá no promontório de Porto Marinada, de mãos dadas, como tanta vez faziam. O seu avô a cantarolar aos toques da sua própria guitarra era uma imagem difícil de esquecer, e que se mantinha bem nítida em sua cabeça.

Juliana fitou a vela tremeluzente ao seu lado, que estendia constantemente a sua sombra na parede do quarto.

Dobrou o papel até o mesmo se tornar um quadrado minúsculo e, de seguida, atirou-o à chama num gesto impulsivo. A chama devorou-o de forma instantânea.

Tal como seus avôs disseram, existia coisas que não dava para transmitir com palavras. Pelo contrário, eram sentidas no coração.

Preferia guardar aquelas palavras para si e somente para si, agora transformadas no calor do fogo que abrasava a sua pele.

Haruka, Tamar, e até mesmo Tolya, ficaram atónicos com aquilo, talvez, obtendo uma ideia completamente errada da realidade que ocorria na cabeça da adolescente. O papel acabou por cair no chão de azulejo, onde terminou de desintegrar-se, até se transformar num montinho de cinzas disforme.

— O que é que estás a fazer? Juliana… O QUE É QUE O PAPEL DIZIA? DIZ-ME IMEDIATAMENTE! — A mulher estava à beira do colapso.

O chão que eu acabei de limpar… — Tamar lamentou, pois já tinha ajuntado as papeladas dos embrulhos e lascas de madeira da porta partida, enquanto aguardava o momento silencioso de leitura da treinadora.

— Não era nada demais, mãe… — Juliana começou a dizer.

— Eu ocupei meu tempo precioso aqui por causa disso! A Cleo deve ter voltado a desmaiar a esta hora porque não cuidei dela... — A mulher colocou a mão na cara, ainda a fitar o chão, visualmente preocupada.

— Ainda me queres fazer um bolo de aniversário? — Juliana soltou de impulso.

— O que te fez mudar assim de ideias de repente? — Ela olhou, desconfiada para a filha.

— Não foi nada, não… — Juliana apertou os punhos em seus joelhos, ainda a encarar as cinzas da mensagem dos avôs, no chão. — O sabor pode… humm… Ser… Pode ser red velvet? Com aquele creme de laranja que tu sabes fazer sempre tão bem? — Gaguejou, um toque de ansiedade na voz.

— Eu faço sempre esse bolo para meus aniversários e, que eu saiba, tu odeias red velvet! Dizes sempre que é corante sem sabor a nada! — Haruka estava embasbacada com aquilo.

Juliana soltou uma pequena gargalhada, a primeira que Haruka via na filha há algum tempo, e que a deixara completamente sem jeito melhor além de manter a surpresa mesclada com choque gravada em sua face.

— Mãe… Eu acho que este ano, eu consigo aprender a gostar. — Juliana prosseguiu, apesar de tentar esconder uma expressão de nojo. — Só me apetece red velvet. É isso.

— Só porque é a minha combinação favorita tu não precisas de pedir…

— Tu não querias fazer algo para mim nos meus anos? Então pronto. Aproveita que eu te estou a pedir algo agora e vai fazer sem falta! Deixa anotado na tua agenda, mãe. E se eu mudar de ideias, ignoras e fazes na mesma. Como sempre fazes! — Disse, em tom brusco.

Haruka calou-se, e cruzou os braços um pouco amuada.

A adolescente foi até o expositor e agarrou sua guitarra. Sentiu subitamente uma vontade bizarra de aproveitar aquele bom tempo da tarde e ir tocar para o quintal traseiro da casa.

Um dia raro entre os típicos dias chuvosos de Abril.

O sol encontrava-se radiante num céu limpo sem qualquer sinal de nuvens, e depois de tanto tempo na escuridão do quarto impulsionada pelos cortinados fechados, sentir tal calor iria cair mesmo bem enquanto olhava para o mar, que, sem dúvidas, estaria a cintilar que nem uma bola de espelhos.

Mas antes de sair, virou-se para a mãe, com um aceno de cabeça.

— Este ano, quero celebrar meu aniversário contigo. Juntas.

E saiu em passos rápidos, já a dar uns acordes em seu instrumento musical e sem deixar espaço para a mãe retorquir o que achava da ideia.

— Não é como se nós nunca passássemos o dia juntas, literalmente. — Haruka encarou os crocodilos da filha, e encolheu os ombros. De certa forma, um alívio a inundou antes de ela também sair do quarto, pois os deveres da rotina já a chamavam em peso. — Acho que já sei o que os avôs paternos lhe disseram…Vocês dois. Certifiquem-se que ela acorda cedo nesse dia.

Red velvet? Eca — declarou a Sandile.

Já a seu lado, Tamar fechou o focinho da sua irmã com um gesto súbito, a impedindo de falar mais alguma asneira.

E anunciou em voz alta, tanto o que vinha em sua cabeça e o que acreditava que vinha no interior da melhor padeira de Cabo Poco:

Vamos preparar-lhe a melhor festa de aniversário de sempre!

Todos os anos dizes isso e acaba sempre a mesma merda — a Sandile conseguiu resmungar, apesar das garras que lhe prendiam o focinho. As palavras entrecortadas foram bem audíveis. — O que fará este ano ser diferente?

Tamar sorria mais que nunca olhando as caixas vazias. Aquela situação se resumia a uma palavra: Improvável. Uma pequena diferença que fizera, bem, a diferença na rotina.

Não sei — respondeu à irmã. — Mas é esse mistério e essa incerteza que sempre deixa tudo entusiasmante a cada época festiva que passa!




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