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PARTE 8 – Novo Lar (PARTE FINAL) - A Fada, o Corvo, e o Baleeiro
– Olhem! Ela
está a se mexer! – Ouviu uma voz.
Podia estar a
sonhar, mas era a voz do Slaking que conhecera no tal barracão assustador, que
para sempre ficaria conhecido por Barracão do Baleeiro, devido ao escândalo que
a morte dos Cetitans e outros Pokémon ali causara.
A notícia não
tardou a correr Zapapico, e todos os responsáveis foram presos pelas
autoridades locais. Mais de quinhentos litros de combustível à base de resíduos
orgânicos foram apreendidos. Apesar disso, sem dúvidas que muitos envolvidos
conseguiram escapar, e o incêndio ficaria para sempre na memória daquela gente
de tal comunidade, que viu o céu negro e pressentiu todos os dias o cheiro a
podridão.
– Ei, senhorita
Tinkatuff, consegues ouvir-me? – Falou uma voz. Esta, a fada não conhecia de
lado algum, junto com a outra que se seguiu.
– Fala mais
baixo, Cleo. Ela deve estar com uma dor de cabeça depois de tudo o que ocorreu,
tadinha…
– Calar? Jade,
odeio quando me mandar calar. Eu ainda tenho voz ativa aqui dentro!
– Eu não te
mandei calar. Só disse para baixares um pouco mais a bolinha aí por causa da
situação frágil de nossa convidada…
– Baixo? Mas
eu estou falando baixo!
– Não. Não
estás. Sabes que, às vezes, falas alto demais.
– Meninas.
Podem parar de discutir, por favor? Ela está abrindo os olhos. – o Slaking
rebateu, envergonhado pelo comportamento das duas. – Será que ela tem fome? Vai
buscar comida, Cleo, sê mais útil e incomoda menos.
E ela lá foi,
a resmungar.
A Tinkatuff
abriu os olhos lentamente. Seu corpo estava cheio de hematomas. O braço
encontrava-se imóvel, fixado por uma faixa branca e espessa que lhe impedia os
movimentos, mas sentia-o melhor, muito melhor. Ao seu lado, como uma recordação
de toda a vida, sua pá se mantinha, imóvel, por cima das cobertas. Pelo menos,
ela fora limpa por sabe-se lá quem antes de ali exposta, mas seus arranhões
ficariam para sempre gravados no cabo de madeira.
Cicatrizes… Gosto disso. Espero que também
tenha ficado com algumas.
Tentou se
erguer. Mas não conseguiu. Era uma cama confortável de um material que cheirava
bem. Muito bem. Um aroma doce, constante, lembrando um mar infinito de Oran
Berries suculentas.
Ao pensar em
berries, seu estômago começou a roncar alto de imediato, mas logo acalmou
quando um dos Pokémon presentes no espaço entregou-lhe uma taça cheia de uns
quadradinhos castanhos, pequenos, conhecidos por ração para Pokémon, bem
apetitosos. Faminta, pegou nestes aos punhados e enfiou-os boca abaixo. Duros
ao início, mas muito saborosos ao longo do mastigar, pois derretiam a cada
dentada numa crocância efervescente.
Não se
comparava a nada do que ela já comera em toda a sua vida. Fora como um manjar
lhe servido diretamente pelos deuses. Aqueles pedaços deviam conter nutrição
completa, pois logo na primeira dentada, a energia do seu corpo fora
revigorada.
Aconchego…
Que bom que
era recordar o que era aconchego.
Saciada, foi
nesse instante que se lembrou de tudo o que ocorreu, e deixou-se desabar em
lágrimas.
– Eu… Eu
morri?... Isto é o reino de Arceus?
– Não, garota.
– O Slaking tomou uma aproximação, com uma caixa que tinha um frasquito de
xarope e uns quantos comprimidos na palma da mão. – Mas agradece a Arceus por
estares viva. Agora que já te alimentaste, está na altura da medicação. Jade,
dá-lhe aquele copo com água que está ali em cima.
E assim a
outra Pokémon obedeceu, buscando o copo com água que estava posicionado numa
mesa logo à frente. A Tinkatuff aceitou o copo com água de bom grado, reparando
na outra de perto. Ela tinha um ar semelhante aos dos humanos, pois se tratava
de uma Tsareena de expressão simpática.
– Agora,
amorzinho. Bebe e engole isto. Vais sentir-te muito melhor. – A Tsareena falou
em tom doce, pegando num lenço de papel para também lhe entregar. – E enxuga
essas lágrimas. Sei o quanto custa… Mas… Já passou… E agora deves-te focar
somente na tua recuperação.
Bebeu, e cada
gole do líquido divino conseguiu a acalmar quase que milagrosamente. Os
medicamentos também transferiram uma leveza quase imediata à sua tristeza. As
lágrimas desapareceram, enxugadas pelo material macio entregue pela outra,
consoante as instruções desta, pois ela lhe teve que explicar de modo breve como
o lenço funcionava entre cada uma das outras coisas. Na natureza da montanha,
nada daquilo existia.
Desejou
questionar mais coisas, mas por hora, não o fez.
Reajustou o
corpo nas cobertas e no travesseiro, reconhecendo o facto de estar a ser
ajudada por Pokémon tão gentis.
– Obrigado… – Foi tudo o que conseguiu dizer, antes de, abraçada a sua pá, ser inundada por uma sensação súbita de tranquilidade, que a fez voltar a adormecer.
Dormiu toda a
noite. Dormiu como uma pedra. Há anos que ela não tinha um sono tão reparador
como aquele. Ela podia se acostumar facilmente a acordar todas as manhãs assim.
– PEQUENO
ALMOÇO!
Uma pena que o
seu despertador não fora o melhor. De qualquer forma, sentiu-se bem-disposta e
revigorada.
Sentou-se na
cama, esfregou os olhos ensonados. Para sua surpresa, não se encontrava
sozinha.
– Cleo, olha o
que fizeste! Acordaste-a! Quantas vezes tenho que dizer para falares mais
baixo!
– Mas eu estou
CHEIA DE FOME!
– Vocês as
duas vão começar a discutir outra vez?
Desta vez, a
Tinkatuff conseguiu ter um vislumbre da Pokémon barulhenta que acompanhava a Tsareena
e o Slaking. Uma avestruz conhecida por Espathra encontrava-se a caminhar de um
lado a outro, com sua própria barriga a roncar em alto e bom som.
– Ena, ela já
acordou. Significa que já podemos ir comer? – O entusiasmo da Espathra acabou
por arrancar um sorriso da fada. – Tem bolo de Red Velvet!
O gorila
encarou a fada.
– Tens fome?
Consegues ir sozinha até a sala de jantar?
A Tinkatuff
acenou, com passos vagarosos, elevou-se da cama. Não precisava de ninguém para
a carregar no colo, sendo que tal não passava de uma ideia bem desagradável
para ela. Sentiu uma pontada de pena ao abandonar aquele sítio tão confortável,
mas, tal como a avestruz, também acordara faminta.
Foi guiada
pelos três Pokémon, indo atrás deles e tomando atenção àquele lar. Os habitats
dos humanos eram cheios de coisas esquisitas para ela, pois era a primeira vez
que estava dentro de uma casa, apesar de que, no geral, aquela casa era como
qualquer outra casa humana de Zapapico. Quando o Slaking, a Espathra e a Tsareena
adentraram a sala, ouviu-se vozes humanas a comentarem entre si.
– Ela está mesmo com um óptimo ar. –
Ouviu-se uma voz feminina, cheia de alívio.
– Sim, vai recuperar rápido e a operação
correu bem no Centro Pokémon. – Disse outra, também feminina.
– Podia ter ficado melhor se não a tivesses
atropelado. – Um tom masculino cortou o ar de modo trocista.
– HEY! Ela é que não parou de correr no meio
do caminho e bateu no carro! Eu travei a tempo! – Defendeu-se uma outra
voz, esta também com uma tonalidade masculina.
Quatro seres
humanos estavam presentes. Dois homens e duas mulheres já se serviam, trocando
bolinhos, pedaços de frutas aleatórias de ar apetitoso, pão, torradas, folhados
de salchichas, e uns quantos cafés que recheavam o local com um aroma bem
agradável.
A Tinkatuff
reconheceu as mulheres. Eram as mesmas humanas que a tinham salvado lá no
barracão. A que tinha uma argola dourada na orelha e cabelo curto aproximou-se
dela, ajoelhando-se para coincidir com o tamanho da fada em plena igualdade.
– Eu capturei-te quando estavas inconsciente.
Foi a maneira mais rápida de te carregar. – Começou a dizer. Sua voz era
doce, e transmitia uma serenidade surreal. – Vou cuidar de ti enquanto estiveres debilitada. Depois, voltarás à
natureza, se tal for a tua vontade, é claro.
A Tinkatuff
fez uma cara esquisita, e a humana entendeu logo o que tal expressão sugeria.
– Não te preocupes, ninguém aqui te vai fazer
mal. E as pessoas horríveis que te maltrataram serão punidas. A maioria já foi
a julgamento neste preciso momento.
– As autoridades Paldeanas já foram informadas
do sucedido. Estamos atrás dos responsáveis pela organização. – Falou um
dos dois homens, e, nesse instante, a Tinkatuff notou como estes carregavam
uniformes alusivos aos tais carros policiais que haviam ao longo do trilho.
Afinal, os dois eram policiais chamados ao local, e um dos automóveis lhes pertenciam.
– Há muito que desconfiávamos que
algo não batia certo devido ao mau cheiro a pairar as redondezas, mas ali a
nossa amiga deu o alerta necessário para iniciar a investigação quando o
Slaking foi roubado. Esse grandalhão costumava viver sempre no jardim dela. E
bem… Acho que o resto, já sabes.
– Mas tem algo que nós todos gostaríamos de
saber. Que é conhecer-te… – Começou a humana de cabelo curto, com um
sorriso no rosto. Ela estendeu-lhe a mão, apertando-lhe os dedos rechonchudos e
rosados. – Meu nome é Haruka. Qual o teu?
Deves ter um nome, estou correta?
Os três
Pokémon a fitaram, atentos, também interessados naquela pequenita revelação. A
fada ainda demorou muito tempo a responder, sem saber ao certo se devia confiar
naquelas figuras em particular para partilhar tal informação tão intima.
Mas eles a
ajudaram imenso, e a entregaram muito conforto e pedaços deliciosos de comida.
Sem se
aperceber, as palavras saíram-lhe, quase que automaticamente.
– Gordinha…
Minha família me tratava por Gordinha. Mas acho que, a partir de hoje, vocês
podem me tratar por Brites.
Brites. Uma
bela homenagem à cria de Wohali que o Corvo havia sufocado com um pedaço de
gelo no coração tantos anos atrás. Fazia um bom tempo que ninguém lhe
questionava sobre sua identidade. A palavra apenas lhe saiu, como se já tivesse
tal no seu subconsciente há muito tempo, esperando a época certa para se expor.
Haruka acenou,
endireitando os seus cabelos castanhos, enquanto lhe fitava os profundos olhos.
– Brites. É um nome bem particular… Gosto
dele. É bem a tua cara.
A Tinkatuff
não soube ao certo como aquela humana conseguira compreender suas palavras, mas
tal fazia agora parte de uma nova fase em sua jornada.
Olhou pela
janela, fitando a montanha, enquanto deixava Haruka mudar a faixa que cobria o
seu braço para uma nova. Sabia que talvez nunca se recuperaria totalmente nos
movimentos, mas por agora, tal não importava lá grande coisa, se ela
continuasse sendo forte e astuta.
Toda a vida
sentiu-se predestinada a ser a heroína daquela terra, mas tudo saíra do seu
controlo e avançou por limites muito além dos seus. Esperava que os pequenos
Cetoddles descobrissem o caminho de regresso ao vale em paz, e que sua família
estivesse segura de uma coisa ou de outra que as forças malignas do universo
impunham naquele mundo. E, se novo mal surgisse, ela iria descobrir para os
proteger, caso chegasse a altura certa para tal.
Ainda existia
responsáveis pela tragédia à solta, e a Tinkatuff não iria descansar enquanto
não os descobrir. Um dia, quando tivesse a garantia de que cumprira a 100% a
missão, regressaria ao seu cantinho na montanha e voltaria a abraçar os
Cetitans e Cetoddles gorduchos que tanto cuidaram bem dela e que tanto a amavam.
Entretanto, aproveitaria
a falta de preocupações em sua nova jornada, que dera uma reviravolta e tanto,
e sentar-se-ia na mesma mesa que aquelas pessoas e Pokémon comiam da mesma
comida e bebiam do mesmo líquido, no meio de risos e conversas agradáveis.
A palavra aconchego e a palavra lar nunca antes lhe tinham ressoado de
maneira tão diferente… Tão viva.
Uma Tsareena e
uma Espathra no vale não era propriamente uma visita confortável. Depois da era
de terror com o Corvo, e do desaparecimento do velho Cetitan desdentado e suas
crias, o vale tornara-se um pouco mais fechado a estranhos do que antes nos
anos que se seguiram.
De qualquer
modo, aceitaram a encomenda que estas duas traziam de bom grado.
Principalmente, depois de descobrirem a identidade da responsável que enviara
tal coisa até aquele espaço remoto perto do topo da montanha.
Um Cetitan
enorme de pele negra como rocha basáltica levou o embrulho até as profundezas
de uma das mais complexas redes de grutas da montanha. Ali, bem no fundo de um
túnel gelado, um outro Cetitan extremamente velho repousava, de olhos
semicerrados e barriga para cima.
Tentou esboçar
um sorriso em seus lábios gretados ao ver o filho, e seus olhos se encheram de
lágrimas ao notar o embrulho feito em folhas de árvores e paus. Não foi preciso
palavras para descobrir quem o havia feito.
O mais novo
ajudou o mais velho a desembrulhar o embrulho, e foi um espanto encontrarem um
bolo de pastelaria no meio de tudo aquilo com um pequeno brinquedo que era uma
bela recordação. Uma pequena Tinkatink feita de peluche ao redor de muitas
berries suculentas. A maioria eram Oran Berries, como se no interior de um
grande cesto de vime. No prato de cartão que suportava aquela bela confeição,
apesar de escrito em língua humana, existia a seguinte descrição: Feito por uma Gordinha, com muito Amor.
Padaria Sonhos de Dachbun.
Por estar
muito fraco e já não se alimentar sozinho, o Cetitan Shiny levou uma das bagas à
boca do pai, junto com a massa sinistra e o creme que a encobria, mas que
cheirava muito bem e era adequado à alimentação e nutrição de Pokémon.
Mastigou
vagarosamente, e feliz, o jantar lhe servido, grato ao universo por mil e uma
coisas inimagináveis.
Adormeceu, com
sua pequena nova Gordinha de peluche ao seu lado.
E nessa mesma noite,
as portas de Arceus lhe foram abertas.
Uma ave negra
sobrevoou o topo da montanha, que raiava em sol. O Cetitan fitou-o, sem
palavras, apenas com um olhar sereno e de compreensão. O Corviknight
acenou-lhe, com um certo amargo a arrependimento na sua expressão, deixando ali
mesmo uma pequena bolinha negra em meio da neve.
Wohali mal
podia acreditar no que via.
A pequena Cetoddle
correu até o Cetitan mais velho, para o abraçar, enquanto a enorme ave se
distanciava no céu do horizonte.
Ai, se
apercebeu que na vida pacata que levou, mesmo envolto de medos e perigos, não
teve nada melhor do que aproveitar cada momento e seus pequenos prazeres da
rotina.
Notas da Autora #17 - Capitulo Especial - A Fada, o Corvo, e o Baleeiro
Sempre vi os meus amigos com Capítulos Especiais que podiam ir até aos 10 Capítulos, ou menos, ou mais, dependendo do caso. Acho que estava a chegar a minha vez de criar algo assim. Escrever A Fada, o Corvo, e o Baleeiro ensinou-me várias coisas preciosas no mundo da escrita, entre elas o facto de que, escrever um pouquinho todos os dias, sendo persistente contra qualquer que seja o bloqueio que enfrentamos pelo caminho, pode atingir resultados maravilhosos.
Estive em volta deste Especial em torno de dois meses, combatendo a preguiça e tentando criar, nem que fosse apenas 100 palavras por dia, um desafio pessoal concluído com sucesso que ainda parece tudo um sonho kkk. Não vou mentir, existiu alturas em que tive vontade de botar tudo fora, mas continuei a lutar e lutar para acabar com os bloqueios criativos. E consegui!
Acho que nunca tinha escrito tanto na minha vida em tão curto espaço de tempo...
Não era suposto este Especial ter atingido as 25 500 palavras (divididas entre as suas 8 partes). Meu objetivo original era ser um oneshot simplória com apenas 5 000 palavras sobre uma fadinha que via seu martelo roubado e nunca o conseguiria obter. Mas que mudança louca, certo? O que aconteceu?
As ideias apenas foram surgindo naturalmente.
Fazia um bom tempo que eu tinha num documento da fanfic a seguinte proposta ''escrever uma oneshot sobre este Pokémon fada perdendo o martelo''. Tal ideia surgiu através de um livro aleatório que eu estava a (re)ler na época, onde a personagem procura vingança de um dragão que matou seu pai e destruiu sua vida, mas não o consegue matar, pelo contrário, encontra inimigos maiores em sua jornada e terá que aceitar tal natureza do mundo.
Achei interessante criar uma história com uma mensagem semelhante, usando a personagem Brites. Quem esteve mais atento sabe que ela é uma das Pokémon da Padaria Sonhos de Daschbun (e que personagem!... com alguns planos para o futuro).
Sobre o especial propriamente dito, bem... espero que eu não tenha traumatizado ninguém! Mentira, eu estava com saudades de escrever algo mais pesadito, pois serei sincera, estamos numa fase da fanfic principal meia chatinha hehehe Vou me certificar que tranco a porta da minha casa a partir de hoje, vai que alguns malucos não apareçam para se vingarem dos pesadelos que eu acabei lhes causando.
Enfim, podem conhecer um pouco mais sobre futuros antagonistas da fanfic entre as linhas. (Ai como eu amo assaltar o Anime com ideias). Não é grande coisa, mas soltando pinga aqui, pinga acolá, é que a história se vai construindo.
Já agora, curiosidade rápida, a Lenda da Lechonk foi inspirada num conto do Arquipélago dos Açores. Bem... O que os Açores tem haver com Paldea? Açores nem sequer faz parte da Espanha! Bom... O nome Zapapico faz referencia a uma das ilhas, e na versão Alemã do jogo, a cidade chama-se Pinchores e parece ser uma referencia louca ao arquipélago.... então eu apenas viajei um pouco na maionese como costume.
Até a próxima!
PARTE 7 – O Baleeiro – A Fada, o Corvo, e o Baleeiro
Vermelho.
O primeiro
vislumbre que teve foi vermelho.
Tudo estava
vermelho.
Sentia-se
fraca, imunda, suja. Sua pá não estava consigo, não tinha onde se agarrar para
amparar suas preces. O conforto não existia mais. Aconchego? O que era isso?
Mas procurou manter a calma, e tomar atenção ao espaço onde se localizava.
Inspirou e expirou.
Inspirou e
expirou.
Piscou os
olhos.
Continuou a
ver tudo vermelho.
Estava
encoberta por um material que não conhecia. Seria o que as pessoas chamavam de
plástico? Não… Não era bem plástico. Talvez era, mas ela não sabia. Apesar
disso, aquela cúpula bizarra era bem espaçosa. Podia ser considerada quente e
confortável, caso ela não se encontrasse apavorada. Vez ou outra, toda a cúpula
estremecia. Existia movimento no exterior.
A Tinkatuff
aproximou-se, e analisou o vidro.
Tentou o
socar, tentou o partir e se libertar daquela prisão imensa, mas todos os seus
esforços foram em vão. Era um material demasiado resistente para tal, e ela não
estava com disposição para reunir todas as forças que lhe restavam num golpe
só, pois sentia-se tão tonta que podia desmaiar a qualquer instante. Seu braço
ainda sangrava, pingando grossas lagoas no chão negro que pisava, e quanto mais
se movia, pior ficava o rio.
Sentou-se no
chão, mesmo ao lado do vidro, tentando estancar o sangue ao pressionar o
buraco. A dor manteve-se viva e quente.
À medida que
sua visão se reajustava, e seu corpo se acostumava à dor, começou a ver formas
e a ouvir coisas que vinham além da cúpula. Vibrações, sensações. Quente.
Estava num lugar muito quente.
Esticou a
cabeça, quase esbarrando o nariz no vidro vermelho.
Conseguiu
contemplar outras cúpulas iguais àquela em seu redor. Cada uma tinha um Pokémon
dentro. A Tinkatuff procurou focar melhor a vista. Os corpos redondos, bem
rechonchudos…
Cetoddles.
Deviam ser
três deles, bem á sua frente.
Sem dúvidas.
Eles tremiam, aterrorizados.
No seu lado
direito, se localizava uma espécie de macaco grande numa cúpula negra e
dourada, semelhante á sua, só mudava a sua cor. Ele estava deitado, e parecia
descontraído em contraste ao clima pesado. O enorme Slaking coçou o nariz,
pouco depois de reparar no facto de estar a ser observado.
Decidiu bater
no vidro, os Cetoddles não se mexeram, de tão apavorados que se encontravam,
mas o macaco… será que ele a ouviria? Além disso, por ser mais velho e ter um
ar mais confortável, era o mais indicado para pedir indicações em meio daquele
momento crucial.
– Hey! Onde
estamos? – Questionou-lhe, projectando a voz em sua direção.
– Shiuuu.
Cala-te. Vê se não queres ser a próxima.
A Tinkatuff
voltou a se sentar, imobilizando-se. Próxima? De quê? Decidiu não fazer mais
perguntas. O diálogo recordou-lhe do veado… Onde, naquela situação, uma das
melhores opções era fugir… Talvez, se ela tivesse sido menos imprudente, não se
estava vendo naquela situação sufocante.
Quanto tempo
será que estivera adormecida? A única coisa que tinha a certeza era da pressão
que sentia na cabeça, como se tivesse levado alguma pancada na nuca, tão forte
ao ponto de fazê-la ficar, de imediato, desmaiada.
Pressionou o
dedo no pequeno buraco no braço, tentando limpar a ferida ao remover o chumbo,
mas serrou os dentes como reação à dor, sem sucesso. Foi quando ouviu um
rastejar familiar. O som da sua nobre pá ecoava algures no recinto exterior, o
que a fez olhar para cima, para além da vista que o vidro vermelho a permitia.
O mundo lá fora parecia enorme, maior do que aquilo que ela se lembrava, e
vultos negros em movimento corriam de um lado a outro. Na medida em que sua
visão se foi acostumando, ela conseguiu reparar nos detalhes.
As figuras
eram humanos, gigantescos. Ou eles estava enormes, ou ela ficava muito pequena
dentro daquilo, influência de poderes desconhecidos ou para ela
incompreensíveis. Um deles segurava a sua pá, usando a mesma de uma maneira bem
porca.
Num canto no
chão, a pá ajuntava pedaços aleatórios daquilo que parecia uma massa disforme,
cortada aos quadradinhos. Com o olhar, seguiu o movimento da mesma.
Aqueles
pedaços foram colocados num caldeirão de ferro existente por cima de uma enorme
fornada. A fornada era uma complexidade de tubos e maquinaria arcaica que a
Tinkatuff não conseguia compreender, por nunca ter interagido com algo assim
antes, mas entendia perfeitamente que, sempre que a porta era aberta e lá
dentro depositado carvão, as labaredas interiores subiam alto e uma vaga de
calor abrasador batia na superfície da Pokéball que a aprisionava.
Sua atenção
estava focada nos pedaços ensanguentados que os humanos faziam a sua pá
carregar. Um outro humano aproximou-se, e depositou uma espécie de farinha
dentro do caldeirão, enquanto o outro mexia e não parava de mexer com uma
grande colher de madeira. O produto lembrava farinha de milho, mas não o era,
pois tinha um cheiro intenso a químicos que faziam os pelos do nariz queimar a
qualquer um.
Após algum
tempo de cozedura, o humano derramou o conteúdo do caldeirão dentro de outro,
que existia ao lado da fornada e seu complicado sistema de tubagens e
caldeirões, mais abaixo. Assim o processo repetiu-se. A única diferença era de
que uma parte do conteúdo fora coada em uma rede quando o liquido fora
derramado, e os restos presos na rede, descartados, depositados em baldes que
se acumulavam a um canto.
O cheiro a
carne cozida, gordura derretida, e a podridão, era intenso, intensificado pelo
cigarro que um dos homens tragava.
Aquele odor
pungente era o género de fedor que não se apaga assim tão cedo da mente.
Entre os restos
do balde, a Tinkatuff reconheceu a pata do veado.
Tenho que sair daqui imediatamente… –
Pensou, a entrar em pânico.
Ligado a esse
novo caldeirão estavam vários tubos alimentados por uma outra máquina. Os tubos
transparentes sugavam e transportavam um líquido semelhante a azeite, mas mais
esbranquiçado, até uns boiões no outro lado da sala.
Ninguém
parava. A torneira tinha que estar sempre a correr.
E sempre que
um novo barril ficava cheio, era selado e levado para longe, e outro barril
novo, vazio, ocupava o lugar, até se encher novamente e o círculo repetir.
Óbvio que a
Tinkatuff não compreendia nada daquilo, mas a ter em conta que pedaços de
Pokémon, quem sabe, de algum amigo ou conhecido, eram ali derretidos para
propósitos ilícitos, dava-lhe náuseas.
Vários homens
e mulheres trabalhavam em conjunto. As mulheres se concentravam numa mesa ao
lado, cortando a carne e a gordura mais a miúdo, para derreter mais rápido no
caldeirão. Os homens, por terem outras capacidades, se encarregavam do trabalho
mais pesado ao lado das máquinas, mas mesmo assim, ainda existia uma ou duas
mulheres mais corpulentas auxiliando, entre eles. Pouco a pouco, em meio do
barulho, a fada conseguiu distinguir alguns dos diálogos que aqueles humanos
trocavam entre si.
– Isto dá demasiado trabalho… Não podemos
simplesmente arranjar combustível no estrangeiro? – Um dos trabalhadores
bufou, começando a protestar.
– Iria dar demasiado nas vistas. O governo
está sempre em cima das rotas dos combustíveis, e Lord Gibeon não iria gostar
de ter suas máquinas localizadas e planos estragados. – Um outro começou a
protestar. – Assim dá mais trabalho, mas
é mais acessível e mais seguro. Ninguém dá por falta destes Pokémon na
natureza. Cetitans é o que mais existe em Glaseado, a dar com um pau.
– Ainda vamos ser apanhados. – Começou a
murmurar, e um sorriso maldoso forçou-se em seus lábios. – Mas pelo preço que é… O serviço é divertido, e está valendo a pena.
Bemmm a pena.
– Sempre vais querer guardar dentes daquele
Cetitan?
– Claro, aquele matulão não tinha muitos,
mas os poucos que tem podem render um bom preço no mercado negro. – E
gargalhou alto.
Naquele
preciso momento, a Tinkatuff apercebeu-se do enorme Pokémon que os humanos
desmanchavam ali ao lado. Um arpão fora cravado no crânio do pobre animal, que
jazia de barriga para cima. Com facões, os humanos cortavam a pele da barriga,
e grande parte do bicho já fora enviada para a fornalha. O chão não passava de
uma imensa mancha de sangue que todos pisavam sem se importarem se existia ou
não.
Não era de
admirar os pequenos Cetoddle estarem tão aterrorizados.
– O mau cheiro já chegou a Zapapico. –
Murmurou um dos humanos, que consultava um jornal no meio do seu momento de
pausa. – É só questão de tempo mandarem a
polícia investigar. Devíamos mudar de localização enquanto é tempo.
– Não. – Falou aquele que, pelos vistos,
liderava todo o serviço. – Será demasiado
dispendioso mover a fornada. E não podemos parar agora que estamos tão
lucrativos. Já temos barris suficientes por hora. Mas quanto mais, melhor.
Dia e noite,
noite e dia, a Tinkatuff não tinha outra alternativa além de esperar enquanto
observava aquela macabra e bizarra rotina. Era sempre seu coração a disparar a
mil quando os humanos se aproximavam da mesa onde ela se localizava e
seleccionavam alguma Pokéball.
O bicho era
libertado mesmo ali, e, com um golpe certeiro de um arpão ou com um disparo de
espingarda… Morto.
Ela evitava
sempre olhar. Os sons já eram aterradores o suficiente.
Vivia um
pesadelo.
Por sorte,
nunca a escolheram a ela, nem a ninguém que lhe estivesse próxima. O Slaking
dormitava as tardes inteiras, como se mergulhasse sempre em estado meditativo,
e os pequenos Cetoddle que ela tão bem conhecia, choravam baixinho e tinham
toda a alegria e inocência de criança removidas do olhar.
O auxílio
podia surgir, ou não.
Ela não soube
bem quanto tempo ficou ali enclausurada, mas seu braço cicatrizou mal e
latejava sem parar, como se caísse fora, e sentisse um buraco fundo no estômago
por não ter qualquer alimento à mão. Os humanos trabalhavam sem parar, e ela
tinha noites mal dormidas, repleta de pesadelos.
A ansiedade de
saber se ela iria ou não ser a próxima era um peso que a enlouquecia.
Certo dia,
depois de mais outra noite mal dormida, acordou com um alvoroço súbito, e
quando abriu os olhos, o espaço estava vazio, apesar de imundo. O silêncio
reinava, o que era uma sensação bem-vinda depois de tanto tempo sempre a ouvir
o batucar da maquinaria.
– Vamos! Rápido! As espingardas! Pegam nas
armas! – Bramiu uma voz distante.
Porém, tal
silêncio não fora longo, pois, no exterior, sentiu aquilo que lembrava metal a
bater um no outro, depois, um disparo de espingarda. Seguido de outro e mais
outro. Depois, um barulho semelhante a outro disparo.
O mundo deu
uma volta de cento e cinquenta graus. Viu uma enorme mão cobrindo a cápsula
vermelha, e, num piscar de olhos, encontrou-se no exterior.
Livre. Finalmente.
Desta vez não
iria hesitar e reuniu sua coragem. A primeira reação mal viu-se no exterior,
foi rebolar para o lado e segurar a pá caída que repousava ao lado de uma
carcaça de Cetitan apodrecida. Sentia muita dificuldade devido ao braço ferido,
mas o pavor era tanto que usou todas as suas últimas forças.
As duas
humanas à sua frente encolheram os ombros com as mãos no ar. Elas adotavam um
ar solene, e inocente. Ao mesmo tempo, apavorado devido à situação vivida. Eram
ambas semelhantes entre si. A da esquerda tinha o cabelo castanho curto ao
nível dos ombros, com grandes argolas douradas pendidas nas orelhas. Já a da
direita, contava com um cabelo mais longo, capaz de cobrir todo o peito até o
umbigo, e este tinha uma tonalidade mais clara, como mel.
– Tem calma. Nós viemos ajudar. –
Começou uma delas. No caso a de cabelo curto e argola dourada na orelha. – Somos amigas. Não te vamos magoar.
– Olha. Ela está ferida no braço. –
Notou a outra, com a mão sob os lábios, em choque. – Foi alvejada… E parece… Mal.
Depois de
tudo, ela não conseguiu acreditar nelas. Não conseguia acreditar em humano que
fosse. Eles eram bichos sanguinários, piores do que muito predador natural por
ai. Piores que o Corvo.
A mulher de
cabelo curto procurou uma aproximação, foi a sua mochila e tirou alguns objetos
estranhos que eram, na realidade, medicamentos. Apesar disso, ambas sabiam que
o que a Tinkatuff selvagem precisava mesmo era de uma intervenção cirúrgica. A
pequena fada cor-de-rosa ainda teve foi muita sorte em não ter perdido mais
sangue, ao ponto de morrer por choque hemorrágico.
Antes de darem
um passo em frente, a Tinkatuff acertou com a sua pá nas restantes Pokéballs.
Com o susto, as humanas recuaram. As cúpulas quebraram-se com o impacto,
libertando os pequenos Cetoddles entre outros Pokémon, que, às cegas, começaram
a correr e bater contra as paredes, em busca da saída, com a fada atrás.
– Eles querem fugir. É aquela porta, ali! –
Indicou uma das humanas. – Não vaiam pela
porta da frente. Usem aquela ali!
– Mas ela está ferida, temos que a ajudar!
– Comentou a de cabelo curto.
A outra
impediu-a de avançar.
– Estão cheios de medo. Depois quando a
situação se acalmar, procuramos por ela na natureza e também conferimos o
estado dos outros.
A mulher
relaxou dentro dos possíveis e rebateu um ‘’tens
razão’’, e murmurou mais qualquer coisa como ‘’e se nunca mais os encontrarmos?’’ logo a seguir, mas por essa
altura, já a Tinkatuff e os Cetoddles iam longe rumo à luz do dia.
Ao saírem do
local escuro e bafiento que mais lembrava um grandessíssimo barracão no meio
das faias de um denso matagal, não era de admirar o caos e a confusão
instalada. Humanos e Pokémon combatiam entre si, rodeados por rectângulos de
lata - carros de polícia que se estendiam pelo trilho de terra batida. Os sons
típicos do conflito eram comuns no lado da frente do espaço, logo, o pequeno
grupo calculou que deviam seguir a direção contrária.
– Vamos,
rápido! Por aqui! – Brandiu a Tinkatuff, guiando os três pequenos. Ela não
sabia para onde ir, e sua fraqueza a deixava mais imunda que antes, mas apenas
seguiu o instinto.
Correram o
máximo que conseguiram, seguindo a fileira dos carros, e sempre fitando o céu,
procurando um vislumbre da direção da montanha. Ao chegarem a um descampado,
viram como era de facto a estrada principal, e ficaram surpreendidos pela
distância que os cortavam de casa. O caminho serpenteava sempre para cima, mas
Glaseado não passava de uma pintura minúscula no horizonte. As casas de
Zapapico eram próximas, demasiado próximas para o gosto daqueles Pokémon que
não eram habituados à presença humana.
Os três
Cetoddle pararam, quando viram que a fada ficara para trás. Naquele ponto, os
outros Pokémon que os acompanhavam pareciam saber para onde deviam se dirigir.
Como guardiã solene, a fada observou estes se dispersarem em seus rumos em
busca das suas vidas.
– Não vens
connosco, senhora gordinha? – Questionou um dos pequenos Cetoddle, à sua
frente.
A fada
endireitou os seus cabelos desgrenhados. As horas em cativeiro a transformaram
numa Tinkatuff bem diferente. Antes ela podia enfrentar qualquer mal, uma
alcateia inteira de lobos se fosse preciso, mas agora, ela sabia que no mundo
atuavam forças ainda mais poderosas do que ela. Forças estas que eram tão
complexas que nem sempre se conseguiam enfrentar.
Deu um pulo de
medo quando sentiu um estrondo atrás de si, com uma vibração do ar oriunda do
barracão.
Mas, ao mesmo
tempo, era errado fugir.
Ela ainda
precisava de respostas. Mais respostas a tudo aquilo.
– Esta deve
ser a passagem Dalizapa. – Refletiu em voz alta ao observar o terreno como uma
boa batedora, e ao usar o pouco conhecimento que tinha vinda das histórias que
Wohali contava. – A estrada serpenteia até a montanha. Sigam-na sempre para
cima. Eventualmente vão chegar ao cume.
– Mas… E tu?
Não vens?...
– Precisamos
de ti… Não queremos ir sozinhos…
– Vamos nos
perder… Não sabemos o caminho de volta…
Os pequenos
diziam em uníssono, mantendo as vozinhas inocentes. Tremiam e lágrimas caiam de
seus grandes olhos.
– Não posso. –
Olhou para baixo, pensativa. – Oiçam, miúdos. Na vida, às vezes temos que
enfrentar alguns problemas sozinhos, pois nem sempre vamos ter aquela mão
milagrosa que nos vai amparar. Subam a montanha, com a cabeça sempre para cima.
E se não encontrarem a vossa casa, tenham fé, pois eventualmente vão descobrir
algum espaço que podem tratar por lar…
– Mas…
Sentiram outra
explosão. Um calor abrasador cortou as árvores e labaredas enormes começaram a
engolir a mata. Pokémon dos arredores corriam de um lado a outro, sem pararem,
e seus passos e bateres de asas contribuíram imenso para a expansão rápida do
fumo.
– Só me
prometam uma coisa. Se eventualmente encontrarem o caminho para o vale, nunca,
mas mesmo nunca, contem ao Wohali o que se passou aqui! O pessoal do vale já
teve preocupações que cheguem com o Corvo. Não precisam de mais, pois eu
própria irei resolver isto. – Ela brandiu, com a pá bem apertada entre os
dedos. – Agora vão embora!
– Não! Não!
– E não! Não
vamos sem ti!
– Não! Só
vamos se fores! Caso contrário, ficamos!
A fada bufou
de desdém.
– Vocês tem
que partir…
Outra
explosão, mais intensa, cortou os ares. A colina de fumo continuava a subir e a
subir, e o som daquilo que era várias sirenes ecoava na cidade humana, já com
mais movimento nas ruas. A presença de mais humanos, interessados em atender o
que ocorria, era mau sinal para todos, e eles não podiam continuar ali
especados.
– Vocês tem
que sair daqui!...
Mas os
Cetoddle birraram.
– Agora!
VÃOOO!
E com o ultimo
‘’vão’’, a Tinkatuff, já sem paciência, e a ver mais humanos naquela direção,
trincou a pá no solo, como se a mesma fosse um arpão em carne de baleia, mesmo
aos pés das crianças. O gesto despertou o terror nos três Cetoddle, que
cumpriram e ordem e saíram imediatamente dali na direção que a passagem
Dalipaza desenhava no cenário. Ela não gostou do que fez para se livrar para
sempre dos miúdos, mas não vira outra alternativa.
Deu então meia
volta, e sem pensar duas vezes, correu, correu e correu no meio do trilho, de
regresso ao barracão macabro, penetrando no meio das chamas cada vez mais altas
e do fumo cada vez mais intenso e negro e da chuva que era composta pela troca
dos projéteis que os bandidos trocavam com a polícia no lado da frente do esconderijo.
No meio da
estrada, em certo ponto, avistou duas luzes, seguidas de um barulho desafinado.
As luzes
mudaram subitamente de direção, dando lugar a uma extensa nuvem de pó que quase
lhe queimou os olhos. Só não o fez, pois ela fechou-os bem a tempo, antes dos
grãos embaterem sua face.
Continuou com
eles cerrados. Não se importou.
Acreditou
estar quase a chegar, e, mesmo com os olhos fechados, correu mais depressa. O
mais depressa que lhe era possível
Muito em
breve, uma nova guerreira entraria na batalha e libertaria a montanha de todo o
mal…
Se não fosse,
claro, seu corpo embatendo em alguma coisa dura que jazia, imóvel, no meio da
estrada.
No segundo
seguinte, viu-se de barriga para cima, com o corpo todo dolorido. Sua pá fora
projectada alguns metros em frente, e ela não a conseguiu agarrar.
Ouviu vozes
humanas. Uma porta a abrir e a fechar. Quatro sombras a circundando. Uma
pequena discussão entre mulheres. Um raio a sugando para o interior de uma
esfera encarnada.
Mais uma vez,
ficou minúscula.
Não se
importou.
O mal a
apanhara outra vez.
Nada importava
mais.
Era o seu fim.





































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