Posted by : Shiny Reshiram 31 de jan. de 2023




– Não acredito que eles tornaram a história da professora Sada num romance piroso – comentou um garoto, com reprovação – Botando uns bichos imaginários à mistura.


– A Sada não aparece na midia faz anos, eles tinham que lucrar com alguma coisa em nome dela – comentou outro jovem, na mesa do café das proximidades.


Um rapaz carregado com uma enorme mochila, descia a rua, cabisbaixo, acompanhado somente por um Pokémon cão de pelagem escura, de uma espécie conhecida por Mabosstiff. Era um dos poucos por ali que não tinha um livro daqueles em mãos.


Apesar de Los Platos ser uma vilazita pacata, quase insignificante, no meio do nada a sul de Paldea, as palavras do mais famoso Best-Seller do ano já chegaram às suas ruas, trazidas pelos alunos da maior Academia da região que por ali viviam.


A partir do momento que o livro fora publicado e tornara-se sucesso de vendas, o rapaz se apercebera que os seus dias de descanso estavam contados. E a chegada do novo livro sensação do ano a Los Platos significava que agora o descanso acabava mesmo oficialmente.


– Além de piroso, tem essa treta toda de passado e futuro, ainda por cima, já não basta levar com isso nos trabalhos da escola – debochou um dos alunos, com o livro na mão, esfolheando-o. O título Passado, Presente, Futuro era o nome gravado em sua capa encarnada, em longas letras douradas.


– Então se não gostas porque ainda estás lendo essa porcaria? – provocou uma outra rapariga, das poucas que não tinha os olhos no seu próprio exemplar.


– Eu sei lá, eu sei que não passa tudo de ficção, mas… Mas tem aqui qualquer coisa que… – e calou-se de súbito, quando notou o rapaz de mochila amarela e seu cão descendo a rua.


Por onde ele passava, as pessoas eram mesmo assim, paravam de falar normalmente como de costume, e começavam logo na troca irritante de olhares e sussurros desconexos, por isso, ele sentia um certo nível de pressão em cima dos ombros, o que aumentava seu olhar sério sempre que acontecia. O rapaz deu uma dentada numa berry que trazia, com ar insatisfeito. Até mesmo o Mabosstiff adotava outra pose, partilhando o mesmo sentimento do dono.


Essa pressão só não era pior que a presença de um certo grupo de jovens em específico, estes utilizavam fatiotas bizarras, tais como capacetes cheios de glitter e óculos de sol em forma de estrela. Era um grupo de adolescentes rebeldes formado à cerca de um ano, após uns certos problemas entre os jovens da Academia. Mas estes seres enfeitados como estrelas deviam ser os piores entre todos os adolescentes de lá. Os adolescentes normais, ou se distanciavam, ou dirigiam apenas olhares tortos com as bocas caladas.


Já aqueles, diferente dos demais, sempre que viam a oportunidade certa, tentavam abordá-lo da forma menos educada possível.


E ele odiava esse incómodo.


O Mabosstiff deu uma pequena latida, baixa o suficiente para seu dono só ouvir o sinal. Graças ao aviso soturno do seu Pokémon, o rapaz notou então um desses tais jovens, a espreita-lho ao longe, na esquina da rua mais abaixo, se preparando para uma emboscada, expondo seu capacete ao sol e fazendo-o reluzir como uma estrela toda cheia de mania.





Soltou o ar num suspiro muito prolongado, acelerando o seu passo e começando a formular algum plano na mente para evitar interagir com aqueles tristes. Hoje não estava mesmo nos seus dias, não tinha disposição nenhuma para os aturar outra vez.


A pior parte de passar por Los Platos para chegar a Cabo Poco – outra vila localizada no meio do nada mais a sul de Paldea, – era mesmo essa, aturar aqueles adolescentes malditos, pois, infelizmente, Los Platos era um dormitório infestado por estudantes infelizes que não conseguiam um quarto na grande Mesagoza, – a maior cidade de Paldea que abrigava a Academia Naranja e Uva.


– O melhor do livro é o Diretor Clavell dando uma de pesquisador importante no final do primeiro Capitulo – Comentou mais um jovem, com uma gargalhada irónica, sentado na esplanada do único Centro Pokémon de Los Platos, mesmo ao lado do local onde estava o maldito ser com capacete cheio de glitter.


De facto, este jovem conversava com ele, e, pelas vestes, pertenciam ao mesmo grupo arruaceiro.


– Sim, desde quando o velho diretor é assim tão heróico? – o tal adolescente, em questão, concordou com o companheiro.


Apesar dos seus passos rápidos, e não estar nada interessado em receber spoilers daquele maldito livro, seus ouvidos captaram algo deveras interessante: finalmente passava por jovens que não abaixavam o tom da conversa.


Mas logo lembrou-se: entre tantos, era uma quantidade insignificante… E de que valia essa dignidade se eles pertenciam àquele tal grupo.


O rapaz do capacete esquisito já estava a meio da rua, a escassos centímetros de si, pronto para puxar conversa. Mabosstiff deu um desvio para debaixo da mesa da esplanada sem ser percebido, e mordeu a perna do jovem que esfolheava o romance lá sentado.


Este soltou um pequeno ‘’ai’’ que fez o outro desviar sua atenção e atende-lho.


– O que foi?


– Alguma coisa mordeu-me! – e olhou para debaixo da mesa, o outro fez o mesmo.


– Mas não à nada aqui.


Entretanto, o rapaz de mochila amarela aproveitara a brecha de distração que o mesmo estava a ter no diálogo com o outro e dera uma corrida, contornando o Centro Pokémon pelo pátio de uma casa das traseiras e voltando à estrada através do outro lado, com o cão negro correndo atrás de si.


– Ei, viste para onde aquele puto foi? – comentou o jovem ao amigo, completamente atordoado pelo sumiço repentino da pessoa a quem ele tinha olho. Também devia estar confuso por não ter descoberto a origem do tal ‘’ai’’.


– Não… Não vi ninguém…– Respondeu-o, sem tirar os olhos do seu livro enquanto esfregava a mão na perna para aliviar a dor da mordida – Hasta la Vistar, a quem quer que fosse…


Arven não era um aluno com notas lá muito excelentes na Academia. E muito menos era um escritor ou autor afamado, mas tinha a impressão que o mundo voltara a o tratar dessa forma a partir do instante que aquele romance fora publicado.


Ser filho de uma pessoa famosa não era nada fácil.


Agora, em segurança, já ultrapassava a ponte pelo pequeno riacho que banhava as proximidades de Los Platos, se dirigindo para o grande farol distante no litoral. Por ali a caminhada era agradável. As árvores ofereciam uma sombra refrescante, e o aroma do mar se intensificava consoante a chegada ao seu destino.


O cão negro farejava o ar. Não estava se certificando se existia algum perigo à espreita, pois aquele trilho era sempre seguro. Apenas procurava algum Skwovet de ar delicioso que pudesse perseguir, ele adorava brincar com aqueles esquilos gulosos.



Ao fim de cerca de trinta minutos de caminhada, as árvores começaram a se dispersar ao longo do trilho, até uma estrutura elevada se erguer no topo de um promontório. O bom tempo e o sol brilhante banhando as águas do mar que se estendiam em todo o horizonte de Cabo Poco eram sempre um aspeto bem convidativo aos habitantes locais, que subiam o grande farol para receberem aquela bênção de Arceus.


Portanto, a primeira coisa que fez mal chegara, foi se certificar se estava, ou não, sozinho. Para isso começou por se atender ao silêncio. Quem ia até ali tinha o costume de ser bastante barulhento, um barulho que ecoava por todos os cantos, e parecia mais intenso que os grunhidos dos grupos de Lechonk que por ali existiam na mata. Depois olhou para o chão, os jovens eram pouco higiénicos e deixavam sempre qualquer papel, lata de refrigerante, ou qualquer outra coisa de ar duvidável pelo passeio da rua em vez do interior dos baldes do lixo. Por último, subiu o farol, só pela certeza se existia mesmo alguém lá em cima fazendo qualquer coisa na calada. Até mesmo o cão negro ajudou na tarefa, dando umas corridas nos arredores e inspecionando locais na orla do promontório onde era demasiado perigoso o seu humano ir.


Mas nada. Estavam completamente sós, então, o rapaz tentou ser o mais rápido que pode.


Foi com a mão ao bolso e tirou uma chave, que encaixou com perfeição na fechadura de uma das janelas que existia na base do farol, mesmo ao lado da escadaria que ia para o seu topo. Confundia-se como janela, por ser idêntica à janela do outro lado da parede, mas era, na verdade, uma porta de madeira velha, cujas cascas de tinta caiam aos montes pelo chão.


A porta estava dura, e, depois de destrancada, só se abriria com o auxílio de um pequeno empurrão.


A maior parte das pessoas que passavam sobre o sítio (que facilmente passava despercebido), achavam que era um simplório quarto de algum pescador, onde se guardavam varas ou linhas de pesca. Ou então pertencia ao faroleiro, e era onde este depositava todo o material relacionado à manutenção do farol.


Sim, já fora em tempos ambas as coisas, mas agora… Era algo… Algo mais.


Depois de investir, mais uma vez, seu tronco inteiro contra a porta, conseguira abrir a mesma por completo. O ar húmido e empoeirado fê-lo espirrar diversas vezes. Arven apressou-se a fechar a porta para não chamar a atenção de ninguém depois do seu Mabosstiff entrar. Foi então abrir a janela que estava virada para o mar, deixando os raios de sol penetrarem o quarto e a maresia purificar o sítio por inteiro com o seu aroma salgado.


O local era bem escuro, apesar da janela aberta com as cortinas arredadas. A única luz artificial existente era a de uma quantidade exorbitante de computadores ligados a um gerador próprio que se acumulavam ao lado de livros e documentos soltos numa grande secretária. Aquela parte do quarto era como uma grande sala de pesquisa privada, daquelas desarrumadas, que não eram usadas fazia anos. O quarto também tinha uma pequena cozinha, casa de banho e camas numa zona à parte.


Era um sítio muito pequeno e simples, mas tinha tudo o que era essencial para duas ou três pessoas viverem com seus Pokémon. E, se tudo fosse bem limpo, ficaria com um ar mais acolhedor.


O rapaz agradou-se com essa súbita ideia mirabolante. Pousou a sua mochila amarela em cima da mesa da cozinha, prendeu o cabelo comprido num rabo de Mudsdale, arregaçou as mangas e pôs mãos à obra na faxina do local, enquanto o seu Pokémon dormia numa cesta cheia trapos, demasiado pequena para ele nas proximidades do sofá.


Arven varreu o chão, lavou o chão, limpou o pó, sacudiu os tapetes, aspirou o sofá, lavou e mudou os lençóis das camas, limpou o frigorífico, deitando fora restos de comida estragada que estava para lá acumulada, e repôs com alimentos frescos que trazia no interior de sua grande mochila. Só não organizou melhor a papelada da secretária e os computadores pois achou que era melhor não tocar muito mais neles, os deixando assim, como ela sempre pretendia.


Sentou-se no sofá, atirando o corpo para trás, depois de terminar seu serviço. Já era o final do dia e o sol, baixo no horizonte, se preparava para o início do crepúsculo. Mabosstiff bocejou, e aproximou-se devagar, deitando-se aos pés do jovem. Ele deu-lhe uns biscoitos saborosos para Pokémon que removera do bolso.


– Talvez seja desta… – murmurou ele para o Pokémon, que pareceu responder num pequeno latido após sentir os dedos do humano roçando em seu lombo.


O quarto estava completamente diferente do estado degradado pelo qual este se encontrara antes. Estava mais fresco, novamente habitável, e o rapaz apreciava sua obra-prima, satisfeito.


Finalmente reconhecia a cara do seu antigo lar.


Naquele dia, não soube bem o que o moveu a voltar ali e fazer aquilo, pois, depois de se mudar para os dormitórios da Academia, se voltava ali uma vez por ano já era muito. Ele sempre teve um pequeno problema a pensar em organização, germes e sujidade, o que o levava a limpezas constantes no seu quarto na Academia de Mesagoza.


Como o livro fora um sucesso, o nome da sua mãe estava novamente nas bocas do povo de Paldea, talvez ela voltaria até ali. Talvez voltasse até ele, e o abraçaria e agradeceria por manter aquele pequeno cantinho tão especial limpo e arrumado após tantos anos.


Mas, tal como ele já imaginava… Ninguém que ele queria apareceu por ali nas semanas seguintes e nem apareceria nos meses vindouros…


Tal como todas as modas, o mal vinha e logo passava num piscar de olhos, portanto, agora que o livro já não era tão comentado e caíra no esquecimento algures nas prateleiras de alguém, Arven se preparava para selar novamente o local por tempo indeterminado.


Não iria por lá os pês outra vez assim tão cedo. Não valia a pena continuar a esperar por quem não aparecia.


Se ela não voltou naquela altura, não iria mesmo voltar mais.


Fez uma limpeza superficial, para pelo menos deixar uma ou duas coisas em condições antes da saída. Se bem que não precisava de nada profundo, em breve já estava tudo preenchido com poeira, teias de Tarountula, terra pelo chão e os vidros das janelas cheios de sal.


Numa breve pausa para descansar e beber água, lembrou-se de ir a um dos computadores, ver se recebera algum e-mail importante sobre algum trabalho ou qualquer coisa relacionada com a Academia Naranja e Uva.


Não tocou nas coisas da mãe, e abriu o e-mail num separador à parte. Aproveitou para ver se os mesmos computadores ainda funcionavam corretamente e se nunca se haviam desligado entretanto, como ela pretendia. O rapaz nunca entendera porquê, mas acreditava ter algo relacionado aos estudos dela. Não entendia absolutamente nada das equações nem dos dados expostos nos ecrãs, mas isso não importava muito para ele pois nunca fora fã de ciência nem matemática. Apenas imaginava que, se os computadores se desligassem, a mãe perdia tudo aquilo, e era um trabalho que devia ser valorizado.


Suas manias bateram forte, o que o fez organizar a papelada. Não era sempre, mas das raríssimas vezes que ia ao computador nas raríssimas vezes que voltava àquela casa, puxava sempre um papel aqui e ali e empilhava um livro ou outro que estivesse solto no topo da secretária numa posição que o incomodasse.


Mas naquele dia em particular, achara algo especial.


Puxou um pacote de papel bem farto com aquilo que julgou ser cartas importantes relacionadas com laboratórios aos quais a mãe colaborava, acontece que o envelope estava aberto, e, em vez de despejar uma chuva de cartas pelo meio do chão, como se era de esperar, do seu interior saiu um livro de capa encarnada.


O Livro Escarlate, ou Scarlet Book, como muitos também o tratavam, era um registo de uma expedição realizada na Grande Cratera de Paldea por um tal professor Heath. Fora em tempos um livro famoso devido às criaturas demasiado inacreditáveis que ilustravam suas páginas, mas agora as pessoas só o referiam nas aulas das escolas vez ou outra e pouco mais.


Porém, o rapaz estranhou o livro ali pois ele muito bem sabia o quanto a sua mãe amava aquele livro desde miúda, e ia sempre com ele para onde quer que ela fosse, como um amigo inseparável. Tanto que muitas coisas nele foram usadas de inspiração no tal romance publicado semanas atrás como homenagem a tamanha paixão.



O Pokémon cão do rapaz também encarava o objeto no chão, com muito espanto. Pegou nele com sua boca e entregou ao dono.


– Obrigado rapaz – agradeceu, dando-lhe uma caricia no focinho e umas palmadinhas no lombo depois de receber o livro. – É um pouco estranho a mãe não ter levado isto para a Área Zero consigo, não achas?


O Pokémon piscou os olhos, abanou a cauda diversas vezes, indo na direção da porta, rapando na mesma, pedindo para sair. O Mabosstiff estava certo, estava na hora de ir embora. Mas o rapaz sentiu um incomodo muito grande agora que encontrara o livro ali e o tinha em mãos.


Se bem se recordava, era um dos maiores tesouros dela…


E ali ele se encontrava, sempre esteve ali, aquele tempo todo, aqueles anos todos, e ela nunca fora à sua procura.


Mesmo que existisse uma quantidade enorme de exemplares igual àquele pelo mundo todo, sua mãe não iria trocar aquele em específico por nada.


Ela não aparecia na midia, não vinha a casa, não correspondia às homenagens por ser a estrela de um livro de ficção qualquer, não atendia telefonemas nem respondia e-mails, tanto que o rapaz já desistira de enviar-lhe algo pois não queria receber outra mensagem automática.


Algo não estava certo…


Nada certo…


Na soleira da porta, antes de a trancar, o jovem desviou o olhar para cima das árvores, como um gesto automático. Ao longe, entre as nuvens distantes, era possível ver o cume das montanhas mais altas que contornavam a longínqua cratera. A Grande Cratera de Paldea sempre contara com um poder anormal em despertar o interesse de humanos e Pokémon para o que quer que a mesma escondesse nas suas profundezas.


Então algo passou pela cabeça do rapaz.


Uma loucura.


O Mabosstiff encarou o dono, com entusiasmo, como se lesse o que lhe vinha no pensamento.


Ambos estavam prestes a infringir leis e a cometer um ato irracional.


Assim, Arven agarrou o livro escarlate e ao lado de Mabosstiff caminhou então em direção á aventura… Em busca das respostas que ansiava.



Tal como ele imaginava… Ninguém por ali apareceu nas semanas seguintes e nem apareceria nos meses vindouros…


Pelo menos… Ninguém que o rapaz esperava mesmo ver voltar.


Enquanto o rapaz e o seu cão se ausentavam nas semanas seguintes, lá na sua louca aventura e se expondo a morte certa, uma criatura alada cruzou os céus certa noite, pousando bem no topo do farol.


Após suas patas tocarem na calçada da superfície do topo do farol, o bicho estranho sacudiu as penas fazendo estas terlintar como peças de uma enorme armadura embatendo entre si. Depois, farejou o local, e desceu a parede até a porta lá em baixo, como se fosse um lobo inspecionando uma antiga moradia à luz do luar.


A chegada daquela criatura desajeitada deu nas vistas. Muito nas vistas. Muito mais do que devia ter dado originalmente.


Para começar, o pessoal da Academia Naranja e Uva o avistaram cruzando os céus na mesma noite da sua chegada, quando este ser saíra da cratera e planara em direção ao mar, sobrevoando as maiores torres da Academia Naranja e Uva. Um enorme vulto negro no céu chamava logo as atenções, principalmente se o mesmo surgisse bem por cima de um edifício histórico e muito frequentado, quer fosse dia ou noite.


Depois, vieram os ruídos estranhos que não deixavam a população de Los Platos dormir, nem a população de Cabo Poco. Os pescadores reclamavam do súbito desaparecimento de peixe no mar, pois a quantidade de peixe apanhado nas redes e mordendo os iscos já não era mais a mesma. Grupos de Pokémon que por ali habitavam também andavam agitados, como se persentissem a existência de um grande predador à solta, principalmente os Houndour que dominavam as grutas profundas que se estendiam pela costa.


 Uma lagartixa com penas, um Cyclizar estranho… Eram alguns dos nomes que as testemunhas inventavam quando tentavam descrever a enigmática criatura, que se tornara rapidamente uma lenda de Cabo Poco e Los Platos.


Parecia mesmo um bicho tirado dos livros e contos de fadas. Uns diziam que as criaturas fantásticas do romance ganharam vida. Já os mais velhos se recordavam da presença de um ser semelhante anos atrás, mas com uma comparência muito menos frequente e explícita, pelo infortúnio de muitos.


Se era ou não a mesma criatura, ninguém, por enquanto, podia saber.


Porém, Cyclizar selvagens não eram Pokémon lagartos que costumassem tomar Los Platos nem Cabo Poco como habitat, apesar de serem uma montaria bastante popular em toda a Paldea.


E em sítios onde aparece bichos raros e misteriosos, ou, neste caso, um Cyclizar selvagem, aparece sempre alguém aventureiro, com o desejo de domar um.


Tentai não olhar para fora.


Respirei fundo outra vez.


Nunca fora fã de livros. Na verdade, ela odiava ler. Mas, naquele mesmo dia, por coincidência qualquer, quando não tinha mais que fazer, pegara naquele romance para passar o tempo e o lera todo de uma ponta a outra em poucas horas.


O havia dado à mãe no seu aniversário à uns meses atrás, a mãe adorava livros de gente famosa, acontece que a mãe quando tocara naquele nunca fora muito além na leitura dos primeiros capítulos, e ela tinha interesse em saber o porquê, mesmo que a mãe afirmasse que amara o seu presente.


Será que aquele livro era, na verdade, assim tão mau?


Sentira ruídos estranhos na rua quando recomeçara a leitura uma terceira vez, e por isso, decidiu ir apanhar o ladrão por conta própria.


Já sabia sobre as noticias locais. Dias antes os vizinhos reclamavam sobre um Cyclizar peludo em Cabo Poco, e ela sempre sonhou em capturar um desses lagartinhos incríveis e com ele percorrer o mundo inteiro. Sua casa também aparecia com os jardins destruídos e os cultivos da sua mãe todos esgravatados. Os vizinhos reclamavam do mesmo em suas moradias. Não podiam ter nada cultivado que os legumes logo desapareciam.


Não.

                                                                              

Não estava a sonhar.


Enquanto narrava para si algumas das frases que mais a marcaram naquele que viria a ser um dos seus mais novos romances favoritos, (como se ela já tivesse lido uma biblioteca inteira em sua vida toda) a jovem caminhava, procurando ser mais leve que uma pena, indo sempre em frente de forma furtiva.


Sua perseguição e investigação a levara até uma praia mais abaixo de sua casa. A areia fria debaixo dos seus pés amansava o barulho dos seus passos, tanto que ela só conseguia ouvir as ondas da maré, o respirar da criatura, e o bater do seu próprio coração.


Ainda estava longe, mas conseguiu avistar o vulto, reconhecendo ser o mesmo dos rumores.


No sopé do promontório, um grande lagarto esgravatava numa lata de lixo caída, comendo restos de comida à boca cheia.



A rapariga tremia da cabeça aos pés. Ele era muito maior do que ela imaginava, principalmente quando aquele bicho abria a sua crista para cima, esticando a coroa de penas como um grande rei.


Queria ficar ali assim com ele. Queria que isto durasse para sempre.


Imobilizou os passos, e ficou analisando aquela coisa vários minutos que mais pareceram horas. Ela viu a parte do corpo que devia ser a cabeça a erguer-se para cima, com a coroa toda esticada.


Num movimento súbito. O lagarto olhou para trás.


Olhava para ela, surpreso, pois se apercebera finalmente que não estava sozinho.


A jovem amava música, e achava aqueles pequenos excertos do romance magníficos. Eram inspiradores. Enquanto pensava neles, deixou-se levar demasiado pelo ritmo que cada palavra formava em sua língua, pois falar sozinha e dizer em voz alta os seus pensamentos, era uma das suas características mais marcantes.


Mas um trovão ressoou ao longe, e foi como se eu fosse atingida pelo raio – narrou, baixinho, saboreando as palavras.


Deixar-se levar foi um pequeno erro que podia ser insignificante, mas em situações como aquela, foi um erro muito tolo.


O lagarto agitou-se, como se dança-se ao som da melodia que a humana soltara, e ela foi rapidamente com a mão ao bolso, agarrando uma esfera bicolor.


Ele não podia fugir agora que ela já estava tão perto!


Mas, infelizmente, foi o que acontecera.


Num abrir e piscar de olhos aquele bicho enorme deu um pulo e voou para além daquilo que a sua vista conseguia alcançar no meio da penumbra. Muito antes da Pokéball atingi-lho.


A rapariga fracassada começou a rir, a rir muito, para lá sozinha, a rir de nervosa, no meio da praia naquela noite particular. Riu tanto, mas tanto que deixou seu corpo cair para trás, ficando deitada na areia entre as dunas, de barriga para cima, observando as estrelas cintilando lá no alto.


Aquilo tudo fora uma das coisas mais assustadoras que já lhe acontecera na vida.


Queria que isto durasse para sempre…


Respirou fundo, continuando a cantarolar e a buscar as palavras certas para alguma melodia sua. Esfregou os braços e as pernas na areia, como se tivesse a desenhar algum anjo na neve. A luz do farol, vez ou outra, rasgavam o céu cintilante, e ao ser hipnotizada pelo fenómeno, a rapariga sentiu-se viva por experimentar uma noite tão selvagem como aquela.


Tirou do bolso o seu Rotom Phone e começou a anotar as letras da sua nova canção. Ficar acordada até bem tarde na madrugada dava-lhe sempre frutos na criatividade. Também tirou do bolso um pequeno cantil com um líquido suspeito.


Sua família ficaria decepcionada se descobrisse que ela bebia aquilo, mas no momento não se importava e não pensou nisso. Afinal, só um bocadinho não fazia mal.


Quando terminou de escrever no Rotom Phone, então, do nada, num gesto de revolta por saber que ela não devia ter cantado pois cantar estragara sua caçada ao Cyclizar, gritou tão alto, mas tão alto, que se tivesse mais perto de casa, de certeza absoluta que furaria os tímpanos dos vizinhos:


– ESTA MOTOCA UM DIA SERÁ MINHA!



Naquele mesmo dia, não era apenas uma adolescente louca qualquer no meio de uma praia distante a usar o romance para proferir uma canção.


Horas mais tarde, onde quer que estivesse, algo semelhante acontecera com Arven bem no final da sua pequena missão, que rapidamente se provou desastrosa.


Vento…


Um vento frio…


As palavras soavam como uma canção de embalar. O ar deixou de ser escuro e abafado, e, quando deu por si, estava muito mais além.


Voava além das nuvens.


Não se recordava de muita coisa do que acontecera. Sentia-se zonzo, como se acordasse a meio de um sonho. A claridade súbita da luz do sol não o deixava abrir os olhos, mas sentia que estava em cima de algum Pokémon voador, que atravessava o céu a uma velocidade impressionante.


Finalmente vento!


Em breve estaria longe do local onde tudo aquilo acontecera. Não sabia se tinha mais alguém com o Pokémon que o resgatara, mas sentia as suas feridas a latejar, e tinha certeza absoluta que o sangue ainda lhe escorria pela testa ou outros ferimentos que tivesse no corpo.


As letras da canção eram-lhe familiares, como também a voz de quem as cantava, mas não se lembrava. Não conseguia se lembrar de nada.


Pelo menos até, entre a melodia, ouvir um grunhido familiar.


Ma… Mabosstiff… – tentou dizer, reconhecendo o som do latido.


Só então se apercebera que tinha o seu cão ao seu lado.


Tentou forçar um pouco mais a vista para tentar ver como o seu companheiro estava após o incidente.


Mas sentia-se tão cansado, tão tonto, tão dolorido, que deixou-se ser embalado pelo vento, pela melodia, por toda aquela sensação de proteção e serenidade.


E então, apagou outra vez, muito antes de descobrir para onde o seu salvador o levava.



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  1. E agora Paldea dá suas boas vindas oficiais! Após aquele prólogo focado na Sada, temos a apresentação de alguns novos personagens que vamos acompanhar com frequência daqui em diante.

    Temos um foco maior no Arven neste início. O coitado por ser filho da Sada acaba sendo tragado para uma situação problemática onde ele acaba sendo recebedor de uma atenção que não gostaria devido à sua mãe, com quem ele parece ter um contato muito escasso. Para além disso, ainda há todas as chatisses da vida adolescente que vão perturbá-lo dentro e fora da escola. Eu até que entendo o cara. Na situação dele eu ia querer sumir com cada exemplar existente desse livro que existe no mundo.

    Por fim a gente fala sobre a Juliana. Uma coisa que gostei logo de cara foi você ter dado a ela um gosto por música. São pequenos detalhes que acabam tornando cada personagem único. Quero ver que tipo de características você separou para os outros personagens da história, tenho certeza que vão ficar muito interessantes. E essa caçada da Juliana pelo Pokémon motoca ainda vai render momentos cômicos por aqui kkkkkk

    Excelente capítulo. Com isso Paldea tem um ótimo cartão de visitas. Já estou ansioso pra ver o que vem em seguida.

    Até a próxima! õ/

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  2. Adoro adolescentes tristes e solitários, por isso acredito que o Arven vai ser um personagem que vou me dar bem a escrever. Talvez porque, tal como ele, eu não gosto de atenções hahaha

    A Juliana foi algo que eu não esperava introduzir assim. Ela... Apenas surgiu kkkkkkk Eu queria algo diferente para fazer a transição até o momento que o Arven é resgatado pelo bicho (ou seria pessoa?)) misterioso, em vez de seguir com ele na sua pequena aventura.
    Acabou surgindo essa ideia! Juliana é fã de Cyclizars e ela vai fazer de tudo para conquistar a Motoca, custe o que custar. Não sou boa com comédia mas espero conseguir arrancar algumas gargalhadas aqui ou ali kkk

    Eu acho um pouco estranho a chegada do Koraidon/Miraidon no inicio do jogo, e assim, usando coisas dos diálogos do jogo aqui e ali, espero que tenha conseguido criar uma justificativa e adaptação dos acontecimentos que sejam do agrado dos leitores.

    Eu sei que as fanfics não tem que seguir a história do jogo a 100%, mas eu amo este jogo e vou fazer tudo por tudo para criar uma adaptação dela igualmente boa e especial!

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  3. No instante em que iniciei a leitura, eu tentei traçar um comparativo com ARDA e enxergar o que tinha mudado na sua escrita. Eu sinto como se fossem duas pessoas completamente diferentes escrevendo as duas histórias, e encare isso como algo positivo. Depois de todos esses anos tentando trabalhar com personagens que foram tão importantes na sua vida, eu sei que o sentimento é de querer sempre dar o melhor para eles, mas ao mesmo tempo também sinto que é necessário deixar que as ideias amadureçam. Com Paldea, você se libertou das correntes que te diziam "escreva um livro! Faça algo digno!", para finalmente se permitir simplesmente escrever. E esse é o poder maravilhoso que as fanfics nos oferecem, o de simplesmente se soltar e escrever sem se preocupar com padrões, número de palavras ou encaixar o leitor num universo inédito. Mal começamos o Capítulo 1, e eu já senti que você está em casa. Esse é o seu lar.

    Uma das coisas que gostei muito de ver no núcleo do Arven é que serviu como um complemento ao que vemos nos jogos, explicando o que ele fazia perto do farol. É um lado muito mais emocional ao compreendermos sua conexão com o antigo lar, algo que só descobrimos lá para o fim. Eu sempre sugeri que os novos escritores evitassem escrever fics diretamente baseadas no jogo (até porque, se quiser ver tudo idêntico, é só jogar kkkkkk), então eu já estou gostando demais dessas pequenas conexões que nos fazem esperar algo, para no final você dar o seu toque especial. Ao invés de termos um protagonista ligado ao Koraidon por coincidência, vemos que é justamente a insistência dela que em ir atrás dele que os fará se conectar. Estou ansioso para ver no que isso vai dar.

    Mais uma vez, venho elogiar suas ilustrações que foram muito bem escolhidas. São momentos pequenos como esse que fazem toda a diferença, e eu sei bem a dificuldade que é escolher qual cena merece ser desenhada ou não kkkk Adorei a imagem da Juliana deitada na praia de pijamas, mas a minha favorita foi essa última, do voo noturno do Koraidon, o efeito esfumaçado das nuvens e o corte no ar. Digna de um livro! Estou muito orgulhoso do seu progresso, Shii. Continue escutando seu coração, e escreva, escreva, escreva!

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    1. É sempre bom uma pausa para refrescar a mente e tentar algo novo. Ainda sou nova, inexperiente em muita coisa, mas quero ser boa no que sei fazer. Posso, por vezes, parecer que estou a melhorar, ou a regredir, mas o importante é acumular experiencia pouco a pouco e manter o projeto vivo!

      Muito obrigado por suas palavras Canas. Tu não sabe o quanto elas foram especiais para mim! AAAAAAA Que mais ilustrações venham! E MAIS JUJU NA PRAIA!
      Espero que o pessoal goste muito da personagem da mesma maneira que eu a estou a amar! Até a próxima!

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  4. Oi Shii!

    Agora sempre que vejo o desenho do cachorrinho começo a rir um bocado por causa da escala, essa galera tem um olho que, só por Deus.

    As artes continuam maravilhosas! É notável a sua preocupação em incluir desenhos em todos os capítulos, o que, na minha opinião, adiciona um elemento visual interessante à leitura. No entanto, eu acredito que você não precisa se sobrecarregar tanto com isso, já que sua escrita já é ótima o suficiente para prender a atenção do leitor.

    Gosto da atenção que você dá aos detalhes, tornando cada personagem único e interessante, como a Juliana com seu gosto por música e a caçada pelo Pokémon motoca. A conexão emocional do Arven com o farol também foi explorada e acrescentou uma camada interessante à história, explicando o que ele fazia perto do farol.

    Outro grande capítulo, pela sua parte. Continue com o bom trabalho.

    Até logo!

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    1. Mabostiff anão é o nosso novo meme, e vocês não se vão livrar dele assim tão cedo kkk Mas fico muito contente em saber que gostou dos outros desenhos! Ficaram um pouco estranhos, mas foi como eu não tocava em lápis à algum tempo na altura (e estou a me encaminhar para o mesmo caminho agora).

      AAA QUEM ME DERA não ter tanta atenção a alguns detalhes, porque eu acabo sempre por me perder no decorrer da história. Sempre tive dificuldades com personalidade de personagens. Mas espero que consiga melhorar com o tempo!

      Bom, ainda estou a pensar na quantidade certa de desenhos a adicionar por capítulos! Por enquanto estou a fazer o que a minha inspiração me manda, mas ainda quero deixar mais '''exclusivo''/especial, como chegas-te a comentar comigo no grupo do Discord.

      Abraços!

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  5. UM DIA ESSA MOTOCA SERÁ MINHA!

    Shii como assim o prólogo inteiro não passa de um livro de romance? Eu achando que era uma história verídica e você me enganando desse jeito. </3
    O Mabosstiff e a Equipe Star, amei ver eles. Mabosstiff pequenininho, eu confesso que ri da primeira vez meses atrás quando eu vi ele com a escala toda minimizada, agora é oficial, temos um Mabosstiff pigmeu entre nós e isso é canônico.
    Amei ver a Juju também, já vejo ela se tornando a minha personagem favorita em sua busca pela motoca lendária dela.
    Quero ver mais do que virá a seguir nas aventuras da Juju e do Arven e seu cachorro pigmeu.

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    1. Enganei?...... Será que sim? kkk

      Mabostiff anão é real e não pode machucar.

      Juju além de ser a protagonista, é uma das minhas personagens favoritas de trabalhar. Espero que goste dela nos capítulos futuros! Tenho a impressão que ela é um bocadinho diferente mais tarde em comparação com este capítulos, mas tbm este cameo é apenas uma apresentação bem breve dela.

      Até a próxima e obrigado mais uma vez. <3

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