PARTE 2 – O Corvo – A Fada, o Corvo, e o Baleeiro
Quando
acordou, estava um frio de morte.
A manhã já ia
avançada, tendo em conta a posição de um sol desmaiado que turvava a vista,
intensificado pelo reflexo das nuvens.
Sua visão era
ofuscada, mas aos poucos, com os solavancos que percorriam todo o seu corpo
devido à subida, tornava-se mais clara. Manteve-se bem imóvel entre as
barbatanas do cetáceo, afinal, ainda sentia o corpo todo dolorido e ao mínimo
movimento, doía-lhe os músculos. A cada passada, ia sempre observando o que
acontecia e para onde o Cetitan a levava. Foi tomada por um certo nível de
esperança, na medida em que seus pensamentos eram postos no lugar.
Quando tentou
fitar melhor a paisagem, notou o quanto estava numa altitude nunca antes
atingida por si em sua jovem vida. O pico da maior montanha de Paldea se
localizava a apenas uns escassos metros de distância, tanto que no meio da
névoa a criança conseguiu fitar uma superfície de madeira cortada pelos
humanos, que assinalava o preciso local no topo da colina mais próxima. Também
conseguiu fitar entre as nuvens, parte da paisagem para a restante região, a
aterradora Grande Cratera de Paldea era uma vizinha bem convidativa aos piores
pesadelos, pois parte das suas montanhas (visíveis no meio das nuvens)
lembravam uma gigantesca boca escancarada saindo do centro da terra.
Mas não era
exatamente na direção desse extravagante marco do ponto mais alto da região que
o Cetitan que a transportava se dirigia. Mas a Tinkatink engoliu em seco ao
notar uma vasta sombra negra muito bem empoeirada por cima da placa de madeira
ali instalada pelo homem.
De súbito, o
Cetitan deixou de se mover, e ela sentiu seu corpo descer até o solo. A visão
da criança fora encoberta por uma cauda de baleia. Ele a pousara e a escondia
no meio de um buraco fundo na neve, bem atrás das suas costas.
– Aqui está a
tua cota diária de Berries, majestade. – Começou o Cetitan a falar.
O Corvo
continuou imóvel lá no seu trono por cima do ponto mais alto, e entretanto, a
Tinkatink tentou espreitar por cima da cauda, apesar de só ter tido um
vislumbre simples de um breve vulto de várias bagas sendo depositadas entre uns
pedregulhos á sua frente. Os pedregulhos se amontoavam ao redor de um rochedo
maior, como se de um altar o pequeno espaço se tratasse. Vestígios de outras
bagas existiam ali ao lado, umas mais bicadas e apodrecidas que outras, mas
quanto a isso, a criança não conseguira reparar, pois o Cetitan empurrou-a mais
para baixo e mais para o meio do buraco com a base da sua cauda.
A criança não
o viu, mas após a frase do Cetitan, sentiu a energia fria e penetrante que era
a pressão de um olho encarnado de uma enorme ave contra um muro de um castelo.
Após analisar a oferenda, a ave ergueu a asa, em sinal de aprovação, e depois
do gesto, que despontou um certo nível de medo ao cetáceo (que a Tinkatink
notara pela maneira como a cauda deste começou a tremer), ouviu-se a sua voz.
Voz que tremeu
tudo.
Voz esta que
fez a fada esquecer todo o mundo que a rodeava, e ansiar saltar dali para fora
e enterrar aquele bico perverso na neve mais profunda, partindo-lhe
consecutivamente a coluna vertebral.
– Fica com as
sobras.
O Cetitan da
cicatriz olhou para o minucioso altar e suas berries, umas podres, outras
metade comidas. Esperou alguns segundos, respirou fundo, e depois prosseguiu.
– Mas, meu
senhor... Isto não é suficiente para a minha família.
– E depois?...
– Ele arqueou a sobrancelha, indiferente à suplica. – Na minha opinião, é
bastante. Tivesses pensado melhor antes de fazeres barulho ao brigares com um
dos teus comparsas por uma baga que mais lembrava um simplório pedaço de
estrume.
O Cetitan
estava incrédulo.
– Por favor.
Eu lhe peço que aumente um pouco a minha parte da cota, pois…
O Corvo
assobiou alto, interrompendo o cetáceo de imediato. Assobiou tão alto que fez
os ouvidos da criança estalarem. O som estridente vinha bem fundo da sua
garganta, e apesar do Cetitan ter recuado uns passos, ele não vacilou por
completo.
A resposta do
Rei da montanha estava bem clara.
O Cetitan
olhou para cima, fitando-lhe os olhos e dando asas a toda a sua coragem.
– Fique a
saber que um dia o teu pódio será derrubado, majestade. – Ele disse o mais
educadamente possível, apesar do ódio súbito que lhe adotou o olhar. – Quando
esse dia chegar, irás arrepender-te de tudo o que fazes. Meus filhos estão a
morrer aos poucos por tua culpa! Todos aqui na montanha sofrem porque tu lhes
roubas os alimentos diariamente!
– Estás outra
vez a subjugar a minha autoridade. – O Corvo expressou um riso malicioso. Sua
frase não fora uma questão, mas sim uma certeza. – Espero que tenhas noção
plena dos castigos que te esperam, Wohali, meu bom e velho amigo.
– Estou sempre
pronto para mais, amigo.
– Minha
montanha. Minhas regras. Já devias saber. – Ele riu, e a Tinkatink sentiu ódio
pelo seu escárnio e ironia. – Cai-me sempre uma pena quando tenho que proceder
a uns métodos severos para impulsionar o teu aprendizado. És um dos meus mais
poderosos súbditos, e um desperdício de potencial.
– Sinto-me
lisonjeado pelo elogio, mas se isto tudo continuar assim, fique a saber que um dos teus mais poderosos súbditos
terminará tão magro que não passará de carne e osso.
A ave
sacudiu-se. Suas penas bateram umas nas outras, criando um barulho aterrador
que ecoou por toda a encosta, seguido de outro piar. A criança sentiu uma
sensação estranha, como se tal terlintar fosse algum tipo de chamamento. Muito
em breve a dupla não estaria sozinha.
– Que pena…
Acho que vou acelerar um pouco mais o processo da tua deterioração. – E voltou a rir-se. – Que tal?
– Que eles
venham. – O Cetitan rugiu e pisou o solo, fixando melhor suas enormes patas
para se preparar a defesa e ataque, sabendo o infortúnio que ai vinha.
Uma sombra
enorme estendeu-se na tundra, sombra esta que eram as asas estendidas da enorme
ave, cobrindo a claridade ofuscante do sol. Por detrás da placa de madeira,
surgiram também outros Pokémon, que a criança não conseguiu identificar por ter
a visão oculta, mas conseguiu persentir devido ao súbito peso que se fez no ar,
característica comum de quando se está rodeado de respirações pesadas de
predadores.
Quando tentou
mirar melhor o exterior, a cauda do Cetitan fez um gesto bruto por cima da sua
cabeça.
Tudo
escureceu, e a pequena fadinha viu-se no meio de mais e mais neve.
Encolheu-se
mais sob o seu esconderijo, bem imobilizada.
Estava parcialmente subterrada na cova, mas ainda sentia muito calor em si, o bastante para permanecer ali viva ainda algumas horas antes de morrer congelada, afinal, as Tinkatink devido a sua tipagem tinha uma resistência maior ao gelo.
– Colegas! Que
comesse uma nova punição. Acabem com ele e não o deixem escapar até segunda
ordem! – Ouviu a ordem do Corvo, como se esta fosse um som distante, abafado.
Ouve um
estrondo inicial, tremores de terra se seguiam sempre um após o outro, e ela
conseguiu distinguir o som característico de uma troca de golpes que se faziam
sentir na superfície. Ouviu a vocalização do Cetitan diversas vezes, e era
difícil distinguir se tais canções eram gritos carregados de dor, ou gritos
severos de uma dedicação e reunião de poder enorme, um aviso solene a seus
inimigos.
Tudo pareceu
iniciar-se tão rápido, como tudo rapidamente cessou.
Existiu um
silêncio tremendo, e minutos que mais pareceram horas.
A Tinkatink
temeu o pior, e abraçou-se a si própria, ansiosa se devia ou não sair dali, ou
aguardar qualquer que fosse o sinal de vida do seu novo treinador. Ela nunca
tinha sentido tanto medo em sua jovem vida. O mundo parecia rodopiar, e o ar
era tão pesado que ela mal conseguia respirar.
Mas lá sentiu
a barbatana do cetáceo a empurrando para cima. Um consolo muito bem-vindo,
apesar de breve, antes dela dar de caras com a presença do Corviknight em cima
da placa, no seu trono imprudente de sempre. As penas da ave negra estavam intocadas.
A
pobre criança viu-se no colo de Wohali, envolta por algumas berries, que de
certa maneira, a camuflavam em frente ao olhar penetrante do predador. Um
líquido encarnado e quente descia da face do Cetitan, e banhava tanto ela como
aos pequenos frutos de má qualidade, criando uma poça profunda por debaixo de
ambos.
A
fada tremia de medo entre as frutas, vá que ela não fosse confundida com alguma
das bagas e servisse de alimento a algum Pokémon faminto que roubasse aquela
baleia, mas no fundo, em frente ao Corvo, tal camuflagem ousada era o mais
sensato a fazer para sua proteção. Ela acabou por se encolher cheia de frio,
fazendo os possíveis para não mexer um músculo sequer, e não olhou para mais
nada da cena de terror que pintava o recinto.
Apesar
de não se ver mais ninguém presente, dava para notar vestígios de outros
Pokémon através das inúmeras pegadas e marcas na neve revolta. Muitas áreas
eram salpicadas de vermelho, tripas, terra e lama, um autêntico cenário de
terror de um campo de batalha. O Cetitan quase pisou uma peça de pele e pelo,
tanto deformada ao ponto de ser indistinguível.
– Espero que
tenhas aprendido a lição, e dá-te sortudo por ainda não estares morto. – O
Corvo gritou aos ventos. – Tenho trabalho mais importante para ti antes de desfazer-te
em pedacinhos.
– Que bom ver
que ainda resta dentro de ti um pouco de piedade... – O Cetitan cuspiu as
palavras. Apesar do esforço para falar devido à dor que o cobria, o seu tom
fora sarcástico. – Eu sei que estás apenas a torturar-me.
– Como já
disse, não desperdiço um bom súbdito.
– A ave gargalhou, sádica, enquanto fitava o Cetitan imundo que se distanciava,
cambaleando no solo lamacento. – Agora desaparece. E amanhã, ordeno-te que
tragas o dobro da cota.
O Cetitan,
insatisfeito, virou as costas viradas para a ave, e foi em frente, descendo a
montanha pelo lado contrário ao qual ali havia chegado. Sua marcha era lenta e
melancólica devido ao fardo da dor.
Apenas lhe
respondeu o seguinte, apesar de tal o ter dito com um tom sofrido:
– Seus desejos
são uma ordem, meu amo…
À medida que
desciam pela encosta e seus trilhos íngremes, a situação tornava-se numa
realidade completamente diferente daquela que a Tinkatink estava habituada nos
poucos locais que explorou e visitou. Por outro lado, era provável a experiência
de vida a ter feito notar em coisas que já existiam, mas que nunca antes dera a
devida atenção.
Para começar,
uma nevasca começou, atrasando ainda mais a marcha cambaleante do cetáceo.
Grupos de
Pokémon esqueléticos escondiam-se entre as rochas e montes de gelo e neve na
medida em que o Cetitan ferido avançava. Pareciam recear qualquer coisa que a
criança não conseguiu decifrar, mas uma coisa era certa: se naquele clima
gélido já era difícil encontrar abrigo e alimento, ainda mais o era com um
Pokémon tão aterrador controlando tamanho território.
– Chegamos…
Estamos em casa. – Wohali disse, cerca de trinta minutos mais tarde, após
atravessar uma curva e chegar a um vale fundo, que era ultrapassado por um
leito de um estreito rio.
Cerca de uns
pequenos seis Cetoddle, que brincaram perto das águas do rio, logo o rodearam
mal o avistaram a se aproximar. A Tinkatink nunca tinha visto uma cria de
Cetitan antes, mas tinha a certeza que aquele grupo tinha um ar bem abatido,
pois todos eram extremamente magros dentro dos padrões que ela conhecia.
O Cetitan
pousou-a no solo de um lado, em frente a todos os pequeninos cetáceos, e do
outro, depositou as poucas berries que ele trazia. Nesse momento, a pequena
apercebeu-se o quanto o seu novo amigo encontrava-se coberto em sangue, com um
novo chifre arrancado pelas garras aterradoras da ave e seus capangas.
Os pequenos,
esfomeados, aproximaram-se, e cada um agarrou num pedacinho minúsculo para se
alimentarem, que o Cetitan lhes entregou. Tentavam não fitar o pai, olhos nos
olhos… A nova ferida estampada era demasiado para os pequenos observarem sem
incômodo, mas apesar do silêncio, dava para notar que estavam agradecidos por
mais uma refeição e mais um dia vivos.
– Toma, esta é
para ti, minha gordinha – Wohali entregou-lhe uma berry azulada conhecida por
Oran Berry, com um sorriso cansado, estampado no rosto sujo. – Ela curará as
tuas feridas. Irás sentir-te muito melhor.
Era mentira.
Ele precisava
mais daquela comida do que ela.
Ele estava
mais fraco, ele perdera imenso sangue.
Tentou
resistir, tentou-lhe dizer que não a queria, mas sentiu a pressão do grupo que
a rodeava consumindo cada um sua metade. E ai apercebeu-se o quanto também
estava faminta, e não resistiu ao aroma doce que o pequeno alimento emanava.
Abocanhou logo
a fruta.
Uma Oran Berry
nunca lhe tinha saído tão bem na vida.
Foi bem
refrescante sentir a baga explodido e seu suco inundar-lhe as papilas
gustativas. Com uma nova percepção, saboreou aquela pequena Berry como se não
fosse comer mais nada dentro dos próximos dias (o que não era totalmente
mentira, já que na montanha tudo era escasso e ela perdera muito devido à falta
do martelo, sem mencionar que quem enfrentava o Corvo logo tinha a sua vida
dificultada, sempre).
Entre todas as
poucas frutas que o Cetitan carregou e distribuiu aos pequenos, aquela era a
única Oran Berry madura, bem redondinha e inchada, de superfície cintilante,
sem nenhuma marca de podridão, ou bicada, ou dentada.
Ou seja, a
única frutinha que se encontrava em perfeito estado dentro da pequena cota
entregue pelo Corvo.
Mas a
Tinkatink só se apercebeu disso quando se recordou, com bastante ternura,
daquele dia peculiar, muitos, mas mesmo muitos anos mais tarde.
PARTE 1 – O Martelo – A Fada, o Corvo, e o Baleeiro
Algures
na encosta da mais alta montanha de Paldea, o forte nevão ofuscava a visão de
uma imprudente mãe, carregando sua tão estimada cria. Cria esta que ainda não
vira a luz do dia, nem as sombras da noite, nem o embalar do vento, das árvores
ou do distante mar, mas já lutava muito antes de eclodir, para manter-se quente
nos braços da sua progenitora.
Afinal, aquele
calor precioso em meio de toda a gélida paisagem podia ser o último aconchego
que iria sentir emanando no mundo exterior, em muito tempo. Se ela realmente
desejasse nascer na próxima estação, necessitava de preservar um pouquinho de
toda aquela força da herança em seu núcleo.
A
Pokémon certificava-se de apagar todas as pegadas deixadas na neve, pois não
queria ser seguida por ninguém. Mesmo enfrentando as condições precárias que
eram os ventos cortantes zumbindo por todas as direções e as pedras gélidas
descendo dos céus sem parar, adotava todos os protocolos necessários para fazer
com que sua passagem por ali fosse esquecida, que nem a de qualquer outra
vítima que, do nada, desaparecia na nevasca por culpa da fúria da montanha.
Depois
de muito escalar a encosta, caminhando e procurando entre rochedos congelados e
trilhos escorregadios, lá encontrou uma pequena fenda entre dois grandes pedregulhos,
mesmo debaixo da copa de um velho e alto pinheiro. As agulhas deste pinheiro
serviam como um excelente abrigo natural devido a seu formato cónico, pois eram
tão largas e abundantes ao ponto de roçarem no chão, impedindo a passagem de
vento, construindo então uma espécie de tenda, de modo a ampararem em seus
ramos uma quantidade impressionante de gelo e neve.
A
Pokémon penetrou no abrigo natural com todo o cuidado para não derrubar a neve
acumulada nos ramos do pinheiro. Analisou a fenda. Era um esconderijo perfeito.
Agarrou num
martelo gigante de ferro que trazia consigo e deu um golpe certeiro entre os
rochedos, abrindo-os e escavando-os um pouco mais fundo. O som ecoou na orla da
montanha, fazendo o pinheiro estremecer e derramar algumas bolas de gelo na
cabeça da Pokémon e na superfície do ovo.
Limpou-o
o mais rápido e o mais cuidadosa possível, e posicionou-o bem fundo na fenda,
onde o vento não soprava e onde os sons exteriores eram abafados. Ali naquele
abrigo, o solo lamacento ainda carregava vestígios de palha e agulhas do
pinheiro, e a Pokémon procurou ajuntar o máximo possível. Esfregou-os com a mão
para os secar um pouco mais, e cobriu o ovo de modo ao seu calor ali perdurar.
Estes Pokémon, geralmente, faziam ninhos com pedaços de metal enferrujado e
sucata, mas tal de momento não era um recurso disponível em meio de tal nevão.
Para finalizar
o esconderijo perfeito, foi com a mão ao seu martelo, removendo uma pequena
placa da sua superfície. Amolgou-a com cuidado, construindo um minucioso chocalho
de ferro que deixou encostado ao ovo. Um item necessário à força da pequena
criatura que dali nasceria, e um belo presente para o dia do seu nascimento,
tal como fizera sua mãe para ela e sua avó para sua mãe – isto ao longo de
gerações a fio.
E selou a
fenda com as rochas que soltara devido ao seu golpe anteriormente.
Sua espécie
pregava o abandono dos filhotes desde bem cedo por questões de sobrevivência,
mesmo estes ainda sendo apenas uns ovinhos frágeis que necessitavam de todo
cuidado e proteção do mundo. Cuidado e proteção estes que agora eram parte do
dever que tal esconderijo lhe entregaria.
– Que a
valentia do mais forte dos martelos te abençoe, pequena. – foi tudo o que ela
disse na sua despedida.
Sem qualquer
ressentimento, a enorme Tinkaton ajeitou o martelo que carregava em suas costas
e deixou o local, partindo para longe, desaparecendo de vista entre os vastos e
altos mantos de neve e névoa que cobriam o horizonte, sem nunca mais ali
regressar.
E
o círculo feroz da natureza manteve-se vivo durante mais umas semanas ao longo
daquele rigoroso Inverno. Mas a escuridão e a fúria não eram eternas, e o tempo
não tardaria a acalmar para abraçar a Primavera.
Os primeiros
raios de sol cortaram as cinzentas nuvens e derreteram a neve, neve esta que
aos poucos ia sendo substituída por tufos de tenras plantas floridas e fartos
arbustos. Apesar da altitude e do frio que de noite ainda se fazia sentir,
aquele mantinho verdejante na encosta da montanha era um dos primeiros locais
chamativos para os Pokémon que só ali regressavam naquela estação.
E um
Fletchling cortou o ar, cantarolando e rodopiando ao som da brisa, em busca de
um espacinho especial para descansar as asas da sua longa viajem. Um alto e
antigo pinheiro parecia o sítio ideal para uma pausa, e foi ai, num dos seus
ramos mais sublimes, que a pequena ave decidiu pousar.
Mas o seu
momento de descanso não foi longo.
O Fletchling
eriçou as penas e franziu o bico, alarmado, quando ouve uma pancada, seguida de
outra e mais outra, bem no meio do tronco da árvore.
Toda a
estrutura estremeceu.
– Puxa, que
brutamontes. – A ave protestou, fitando o solo para contemplar a origem do
problema. – Oh. Olá! Será que podes parar ai em baixo?
O pinheiro
estremeceu por completo outra vez, e a pequena ave cinzenta e encarnada não
teve alternativa a não ser sair dali o quanto antes quando o pinheiro começou,
vagaroso, a inclinar-se. O Fletchling soltou outro esgar de reclamação, mas já
lá ele estava bem longe no horizonte, quando o pinheiro caiu no solo envolto
num violento baque.
Esfomeada, a
autora do crime explorava aquele mesmo tronco, em busca de qualquer coisa que
pudesse saciar o roncar de sua barriguinha. Podia ser pequena, uma cria jovem
de poucos dias, mas com o seu chocalho em mãos – ou martelo, por assim melhor
dizer – era imparável, como qualquer criança curiosa aprendendo sobre o mundo.
– Papa! Papa!
Paparoca! – Pedia ela á árvore caída em sua vozinha infantil, como se o tronco
tivesse consciência.
A Tinkatink
deu mais umas marretadas no tronco, até ter uma ideia brilhante ditada pelo seu
instinto.
Conseguira
derrubar o pinheiro por inteiro, então, porque não quebrá-lo ao meio? Continuou
a esbarrar e esbarrar o objeto metálico contra a casca enrugada, e a cada
pancada, mais danificada a madeira ficaria.
Demorou tardes
inteiras assim, martelando a sua árvore no mesmo preciso ponto, para o escavar,
com breves pausas para descansar e beber de um riacho vizinho, alimentando-se
de algumas bagas e plantas que encontrava ali perto, além de pequenos animais
que vez ou outra a casca do tronco abrigava debaixo de si.
Ela usou então
as metades conseguidas e os ramos arrancados do tronco para reforçar um pouco
mais o conforto do seu pequeno covil entre os dois pedregulhos, onde de noite
pernoitava numa cama feita de palha, agulhas de pinheiro e restos de casca de
ovo quebrado.
– Quentinho! –
Bramiu, contente, após contemplar a conclusão de sua obra. Fagulhas e mais
fagulhas de madeira proveniente do tronco esmagado agora acrescentavam em tanto
o conforto do solo do seu lar. Ela atirou-se ao espaço, e, de braços estendidos
e barriga para cima, adormeceu sob a palha quente.
Era um espaço
quente e seco, e isso para ela bastava, pois significava aconchego. Um
aconchego de sua mãe, que apesar dela não ter conhecido, ainda se recordava da
voz e do toque de quando estava no interior do ovo.
Mas a paz e a
abundancia não eram constantes, e muito menos garantias para o mundo. Aconchego
fazia parte do pacote que, com a mudança, também poderia desaparecer num piscar
de olhos.
Certa manhã, a
Tinkatink saiu de sua fortaleza e deparou-se com um cenário terrível: o riacho
que saciava sua sede secara devido ao calor do ápice do Verão, e alguns Pokémon
de porte maior, que habitavam as redondezas, arrancaram por completo um dos
arbustos cujas bagas abundantes eram uma de suas principais fonte de
alimentação.
– Paparoca? –
Questionou, ajuntando um dos machucados ramos dos arbustos com seu martelo, o
inspecionando.
O galho
desfez-se em pó, como se tivesse sido carbonizado por algum dos poucos Pokémon
de fogo que passavam pela região.
Nunca antes
ela se tinha visto naquela situação tão crítica, sentindo a necessidade de
partir e explorar áreas mais longínquas da montanha por uma simples questão de
sobrevivência. Ela tinha tudo o que precisava naquele pequenote vale, comida,
água, e um bom lar. Mas agora, viu-se apertada, com medo do desconhecido e dos
perigos que a esperavam longe dali.
Mas ela também
crescia a um ritmo alarmante, e estava forte e saudável.
A criança
apertou os punhos, respirou fundo, e segurou seu martelo, dando uns valentes
passos em frente além fronteiras, ficando cada vez mais longe do mundo que
conhecia.
Acordava de
manhãzinha em busca de algum local perfeito, mas tentava voltar sempre antes do
pôr-do-sol, pois os dois pedregulhos eram o único local que ela conseguia
chamar de lar.
Seus
movimentos eram furtivos, pois não queria chamar atenções de outros Pokémon,
talvez, já com o ressentimento no interior de si que qualquer tipo de atenção
podia lhe dar problemas.
Mas certo dia,
a infelicidade ocorreu, e envolveu-se, sem querer, entre um conflito de
tenebrosos Cetitan que disputavam por comida em um outro vale quilómetros mais
abaixo daquele onde ela nascera.
– Eu cheguei
aqui primeiro, gordo! – Bramiu uma das baleias. – Essas Oran Berry são minhas!
– Tu é que és
gordo! Seu gordo! – Berrou a outra, começando a rebolar seu corpo no chão e
chocando no adversário.
Os dois
Cetitan faziam a terra e pouca neve que a cobria respingar em todas as direções
devido á troca de golpes que não paravam de proferir. A Tinkatink nunca antes
assistira a uma batalha, e estava parada atrás de alguns arvoredos, abismada
com tamanha demonstração de força e poder, pois tudo aquilo instigara bastante
a sua observação. Os dois Pokémon se chocavam um contra o outro. Suor, sangue e
gordura embatiam entre si e cobriam o solo lamacento, enquanto os olhos da
pequena se enchiam de um brilho apreciativo a tamanha violência.
– Gordo!
Gordo! – A criança ria, apontando para ambos Pokémon enquanto os observava a
luta na sua passagem. Era difícil saber qual deles ela apoiava, pois não parava
de chamar a ambas baleias os nomes que ouvira, na sua mais pura inocência.
– A quem ela
tá chamando de gordo? – Resmungou um dos Cetitan, a fitando com seu olhar
gélido. – Ninguém deu educação a essa criança?
– Acho que ela
quer roubar nossa fruta! Acho que aquela bebé precisa de aprender uma lição… –
O outro disse e ambos concordavam, com tom mordaz, talvez, afectado pelo stress
que já pairava no ar anteriormente.
Podiam ser bons
sujeitos em situações normais, mas quando alguém entra assim no meio de uma
briga, o mais provável é apanhar a mesma carga negativa por tabela.
A criança
começou a tremer dos pés á cabeça quando se se dera conta do quanto as duas
baleias de gelo se aproximavam a rebolar como uma avalanche em sua precisa
direção, furiosas pelo insulto, e, como eles bem entenderam, tentativa de
roubo.
E assim fugiu,
entre os golpes e gritos de horror, atravessando trilhos de pedra, massas de
neve, vales profundos e rochosos, sempre para baixo. Escapara por um triz. Só
parou no fim da montanha, muito depois de deixar de sentir o peso das pisadas
das duas baleias atrás de si, a perseguindo freneticamente. Por essa altura, o
terreno começou a ficar menos frio e menos acidentado.
E quando parou
e recuperou o fôlego, pois estava exausta da fuga devido ao esforço enorme da
corrida das suas patinhas curtas, foi só quando notou o quanto descera da
encosta, demasiado do que aquilo que gostaria tendo em conta o calor e humidade
do ar.
Olhou para
cima, tentando se situar.
Olhou em todo
o seu redor, sem saber que caminho tomar.
Estava
perdida.
Estava
totalmente só.
– Paparoca?...
– Murmurou, sentindo o estômago roncar e tentando não passar a tarde a chorar
abraçada a seu pequeno martelo – a única recordação que agora tinha de casa.
Mas tal era
inevitável. A pobre criança caminhara a noite inteira, aos constantes soluções
e rios de lágrimas, guiada pela solitária luz da lua e pelas estrelas que
salpicavam o céu escuro.
Apesar de não ter nenhum rumo certo que seguir, além de tentar escalar tudo aquilo e subir, subir, subir montanha acima, sentia que devia caminhar por aquela rota íngreme da encosta. Ouvia os instintos. Em certo ponto, parou para descansar os pezinhos doridos perto de um arvoredo.
O horizonte já
clareava, mas o cansaço era tamanho que a pequena Tinkatink acabara por
adormecer ao relento quando o mesmo era pintado com os primeiros raios de sol.
Teve um sono
agitado, com o pressentimento de que algo, ou alguém, arrancara de si alguma
coisa de valor inestimável. E assim acordou num sobressalto, após ouvir um piar
indecifrável nos arredores.
Era um
cacarejar diferente, algo único e aterrador vindo bem do interior da garganta
que ela nunca antes tinha ouvido em sua jovem vida. E tal cantar também seria
um marco na sua jornada.
Ao abrir os
olhos, seu corpo paralisou por completo ao contemplar a grande e intimidadora
ave que se encontrava bem empoleirada num rochedo ao seu lado, com todo um ar
de superioridade.
E, entre o seu
bico negro, lá estava o pequenote martelo!
O seu tão
precioso martelo!
A única
herança que ela tinha de milhares de gerações. O seu único objeto que a deixava
confortável longe de casa, no seu novo dia a dia.
A pequena deu
um pulo, dando asas a toda a sua coragem.
Com cara de
má, foi direta contra as patas da enorme ave, que continuou imóvel, usando o
martelo para limpar suas penas e lustrar sua armadura cinzenta.
– É meu! É
meu! – Brandia a criança, num claro desespero que também mesclava inquietação.
A enorme ave
apenas fitou a minúscula criatura com o seu olho vermelho, tão vermelho que
parecia uma jóia de fogo vivo. A Tinkatink não parava de lhe dar socos, com
todas as forças desesperadas que tinha, numa das suas patas, de forma bem
ritmada. Mas ele era tão grande e pesado que não sentia nada além de uma
simples coceira que nem dava vontade de coçar.
Ele soltou um
piar, um tanto aterrador para a pequena, como se gozasse bem com a cara dela,
que nem um adulto perverso ao sentir o prazer de roubar um doce de uma criança.
– MEU! MEUUU!
– Continuou a pobre e minúscula Tinkatink.
A ave negra
levantou a pata, um gesto simplório, mas suficiente para derrubar a leve
fadinha no chão, e ele voltou logo á pose original. Mas a pequena era
persistente, e voltou a bater-lhe e arranhar-lhe com seus dedos gordinhos,
esperançosa em recuperar seu maior tesouro.
Ele queria
continuar a gozar o brinquedo novo, mas os berros da Pokémon, e o seu toque
constante na pata, se tornavam aos poucos mais um incómodo idiota que uma
piada. Impaciente, estava na altura do corvo maldito avançar para o próximo
passo da sua jogada perversa.
E assim,
engoliu o minúsculo pedaço de metal como se fosse uma simples migalha. Logo a
seguir, soltou um piar ainda maior, como se gargalha-se.
A
Pokémon fada empalideceu com o sucedido, ao ver a longa língua da ave limpar o
bico de um lado para o outro, totalmente satisfeito por aquele belo sabor,
bastante saciado.
Esta fora a
primeira vez na vida que a Tinkatink aprendera algo deveras importante para sua
existência, mesmo tendo sido da pior maneira. Muitos Pokémon do tipo Steel apreciavam os martelos das
Tinkatink e sua linha evolutiva, pois o metal usado na construção destes, era
de certa maneira bem nutritivo e saboroso, e resistente caso o Pokémon quisesse
usar como armadura de seu corpo. Qualquer Pokémon do tipo Steel era desejoso de tal material, e muitos andavam sempre a
roubar estes objetos, por serem como doces ao toque, sabor e textura.
Quando o
imponente Corviknight bateu as asas, criando uma poderosa rasada de vento que o
fez planar para longe dali, a pequena cambaleou para trás, por não aguentar a
força de tal vendaval.
E
ali, deitada no solo em meio da poeira, ela permaneceu até o grande corvo negro
desaparecer no horizonte, e o sol se pôr, dando lugar a mais uma nova noite
solitária e fria, longe do conforto do seu lar.
E chorou as
horas seguintes, e lamentou sua perda, fitando as estrelas que faiscavam com um
brilho distante.
Sem
o martelo, ela sentia-se incompleta.
Sem
o martelo, a Tinkatink não era ninguém.
A
tristeza, a solidão, a falta do martelo, a falta do seu precioso lar e a
saudade do conforto logo tornaram sua inocência em outra coisa.
Em algo mais…
Depois
da tristeza, veio a revolta. Os dias foram passando, e ela aos poucos crescia.
A Tinkatink sentia que devia ter feito mais, que tinha que fazer mais,
portanto, com as aprendizagens que vinham da rotina, adotou um novo objetivo
para a sua vida, em parte, guiada pelos instintos: iria encontrar o grande
corvo negro, dar cabo dele e com a sua armadura metálica construir um novo
martelo para si.
Para essa
ousada tarefa, ela tinha que ser mais forte, ficar mais forte.
E apesar de
ser novinha, sabia perfeitamente por onde começar.
Iria retornar
ao mesmo campo ao qual ficara impressionada por força e violência meses atrás.
Naquela tarde
ensoleirada, subir outra vez a montanha não fora tarefa fácil, muito menos
reencontrar a estrada até o local almejado, mas a fada, depois de muito tentar
e explorar, mal por mal chegou ao seu novo objetivo.
As duas
baleias rebolavam, e a cada embate que seus corpos proferiam, um contra o
outro, o solo estremecia tamanha era a ferocidade dos golpes. O ar
encontrava-se mais frio ao redor dos Pokémon do tipo gelo, não só pela
altitude, mas também devido ás baforadas de gás criogénico que saiam de suas
mandíbulas.
A pele grossa
dos corpos de ambos eram repletas de grandes cicatrizes, provenientes do embate
dos chifres e das mordidelas que ambos trocavam entre si. Quem sabe, também
lições de toda uma longa vida a sobreviver a predadores. A Tinkatink nesta fase
já estava um pouco mais velha, o suficiente para criar opinião própria, e
gostou das cicatrizes, davam-lhes um certo charme.
Será que
doeram muito?...
Ambos os
Pokémon pararam quase de imediato, ao repararem que estavam a ser observados
pelos olhos curiosos da pequena fada cor-de-rosa.
– Não é aquela
criança que uns tempos atrás nos chamou de gordos? – Disse um deles, este no
caso, não tinha um chifre, pois o mesmo fora arrancado, deixando uma mancha em
forma de tronco de árvore no espaço em falta, cicatriz esta que descia até uma
das garras da sua grossa pata direita.
– Parece
mesmo. Espero que ela não nos venha irritar outra vez. – Disse o outro, este o
qual lhe faltava um dos dentes da frente, como se alguém lhe tivesse dado um
soco ou um golpe de cauda naquela área (o que provavelmente acontecera mesmo).
Era a chance
perfeita para a criança tomar uma aproximação.
Em vez de um
martelo, ela carregava um minúsculo galho de uma árvore, pois metal naquela
área de Glaseado era um recurso pouco acessível, e a pequena sentia-se mais
confortável e confiante ao sentir o peso de algo na mão. Não era a mesma coisa
que um martelo, mas estava a ocupar o lugar e preenchia bem nos momentos de
necessidade.
Pelo menos,
por enquanto.
– Quero ser
forte. – Começou ela. – Igual vocês. Vocês ser fortes!
Os dois
cetáceos encararam a fada com bastante alerta mesclado com hesitação. Para
começar, ver uma Tinkatink sem um martelo, usando uma varinha de madeira no
lugar, era uma novidade irresistível a qualquer atenção. Por outro lado, os
dois não eram lá muito inteligentes, e olharam com desconfiança, tentando
processar o esforço enorme que a criança fazia para tentar se comunicar com
eles, pois a pequena não tivera a melhor instrução em termos de fala.
– Estás a nos
chamar de gordos outra vez? – Resmungou o que não tinha os dentes da frente.
O outro, que
era maior e mais velho que o companheiro, e, mal por mal, um tanto mais
sensato, apesar de intimidante devido á marca enormíssima que lhe cobria o
corpo arredondado, bufou de desdém.
– Ela quer ser
treinada por nós. – Explicou ao amigo (ou seria rival?). – Como se nós fossemos
humanos capazes de treinar bonecas de peluche.
– Cala-te.
Apenas… Apenas ignora. – Disse o cetáceo desdentado. – Talvez essa coisa vá
embora se ignorada.
– Por favor! –
Gritou a pequena, quase implorando! – Vocês fortes! Eu querer ser forte! Me
treinem! Por favor!
Os dois
Cetitan se entreolharam, com desconfiança, mas naquele momento, ignorar parecia
um bom plano, e logo voltaram ao que estavam a fazer. A criança persistiu,
ainda uns longos minutos, mesmo que eles estivessem a fingir que não a ouviam e
muitos menos a viam. Voltaram à troca de golpes, sem esmagarem a fada, que
corria entre os seus pés, procurando a atenção e a aceitação, sempre a brandir
o seu raminho de árvore em direção aos céus.
– Por favor!
Por favor! Também quero lutar! – Pediu, quase a ser esmagada, mas com tanta
força de vontade reunida em indescritível coragem, que dava socos na parte de
baixo das barrigas enormes.
A varinha de
madeira logo quebrou contra a pele dura de uma das patas dos Cetitan, mas
apesar da nova infelicidade, ela não vacilou. Por outro lado, um dos Cetitan ia
tropeçando nela como se a mesma fosse uma raiz saindo do solo, e fez um esforço
enorme com seu corpo para não cair que nem um pedregulho em cima de uma semente
minúscula.
– Acho que ela
não se irá embora assim tão facilmente se dissermos que não. – Murmurou um dos
Cetitan.
– Treinar!
Treinar! Ser forte! – Persistia, sempre, ainda nos socos.
Os dois
voltaram a se imobilizar em meio da súplica.
– Posso acabar
com ela com uma patada? Já não a posso ouvir mais a berrar.
– Ela pelo
menos reconheceu o potencial de nossa força. – Admitiu o da grande cicatriz,
levando com mais um soco no abdómen. – E ela até que tem uma forcinha e
tanto...
Mantivera-se
imóvel, testando mais um pouco a ousadia da criança, que preservava sempre o
ritmo, tentando provar a eles (e quem sabe, também a si própria) de que era
capaz de os derrubar. Em certo ponto, o Cetitan encolheu a barriga e aguardou,
e quando a criança se aproximou o suficiente para mais um soco, ele expandiu-a
e embateu nesta mal sentiu em si o seu toque.
A Tinkatink
voou alguns metros atrás devido à força brutal do golpe. Bateu com todo o corpo
num rochedo afiado e caiu ao chão, completamente KO.
– Vamos mas é deixá-la falando para o boneco
e continuar nos nossos treinos. Essa criança será um desperdício de tempo.
– Olha que não
sei. Tenho certeza que ela não vai embora quando acordar. – O Cetitan mais
velho disse, pensativo. – Elas evoluem, com paciência, e eu acho que, afinal,
essa pequena tem potencial.
– Eu não quero
ser um babysitter! – O desdentado protestou. – É para isso que servem as nossas
fêmeas! Ou os treinadores humanos!
– Para de ser
antiquado. – O velho resmungou. – Lembra-te que a ajuda de uma Tinkaton pode
ser útil contra o Corvo.
O Corvo.
A palavra
ressoou em toda a encosta da montanha, como se a mesma carregasse uma conotação
tão negativa ao ponto de que não devia ser pronunciada, nunca, por ninguém
naqueles lados de tamanho território, em circunstância alguma.
– Ouve lá oh
gordo, eu não quero problemas com ele… – O Cetitan estremeceu, discordando com
a ideia de modo total. – Se queres tu, então fica a saber que eu quero ficar
fora disto.
–
Quem é o Corvo? – Ambos ouviram uma
vozinha aflautada, e olharam para o lado, procurando a origem da questão.
A
pequena criança já acordara, e tentava se erguer com claras dificuldades,
apesar de que seu corpo machucado não ajudava, ela fazia os possíveis para não
se dar como fraca e não voltar a adormecer.
Fraca.
Não…
Ela não o seria. Pelo menos desta vez.
Mas
voltou a cair, e semicerrou os olhos, tentando aguentar a dor que o seu corpo
protestava.
–
O Corvo é o maldito Corviknight que governa esta montanha. – O Cetitan com
cicatrizes disse, tomando uma aproximação vagarosa. – Ele não é uma brincadeira
para crianças como tu… – E acrescentou, mais uma afirmação que um pedido. – Mas
os Pokémon da tua espécie são inimigos naturais dos Corviknight. Talvez, se
devidamente treinada e evoluída, consigas travá-lo. Mas vais precisar de
trabalhar no duro para tal.
–
O… O que é ele?... – Ela questionou, com clara dor na voz.
–
Uma gigantesca ave de penas negras com armadura de metal. Não costumam habitar
naturalmente Glaseado, por isso ele é único nestes lados. E irreconhecível.
Como ele veio aqui parar e iniciar seu reinado de terror é um mistério. Ela
rouba todos os nossos alimentos e não para de perturbar as nossas crias.
A
Tinkatink era muito nova para compreender metade daquelas palavras, mas pela
descrição, reconheceu o indivíduo na hora. O Cetitan encontrava-se demasiado
tenso, fitando o ar, para se aperceber que, naquele mesmo instante, conversava
apenas com uma simplória criança. Afinal, o que ele dizia aos céus parecia mais
um pensamento para si próprio.
– Meu… Meu
martelo… – A fada começou a chorar amargamente. – Ele comeu meu martelo!
E foi aquele
choro que despertou o cetáceo para a realidade, dando-lhe uma expressão mais
solene, comportando-se de forma mais adequada face à mais nova. E também
criando um peso de culpa por a ter perseguido dias antes por um motivo bobo.
– Todos nós
aqui na montanha perdemos coisas para o Corvo… – Murmurou, olhando para cima, e
tentando adotar um vocabulário um pouco mais simples e apropriado para a
pequena. – Estás a ver estas marcas no meu corpo? Foi ele que me bicou como se
eu fosse uma Oran Berry.
– A teoria
mais popular diz que ele foi abandonado por algum humano, pois é impossível um
Pokémon sozinho chegar àquele nível de poder. – O desdentado declarou, ao
empurrar o outro para o lado e tentar manter uma conversa mais a dois. – Eu não
quero envolver uma criança nisto. E lembra-te que tudo pode piorar nossa
situação, como se ela já não fosse muito boa!
–
Eu… Eu sei. – Suspirou. – Apenas sinto que não devo desperdiçar esta
oportunidade de ouro… – O mais velho murmurou, olhando de esguelha para a
fadinha que ainda jazia no chão duro, em sofrimento.
– Depois não
digas que eu não te avisei. Enfim, vou procurar mais comida. – E o desdentado
virou as costas, retirando-se do local.
– Está na
altura de mudanças amigo, confia em mim. – Brandiu o Cetitan das cicatrizes,
com a voz bem alto, contra o vento, como se o mesmo pudesse transmitir sua
mensagem ao universo.
E
então tomou uma aproximação, tomando a criança nos seus braços.
A Tinkatink
parecia um pontinho rosa minúsculo no meio das barbatanas carnudas do enorme e
valente Cetitan. Soltou um pequeno gemido, e o cetáceo, guiado por um certo
nível de instinto paternal, acabou por ceder e acariciar a mesma.
A pele dele
era fria, tão gelada ao ponto de aquecer a fúria das suas feridas, como um
calor anestésico. Rapidamente, deixou de sentir qualquer tipo de dor, e embalada
pelos solavancos dos passos do gradíssimo Pokémon, acabou por voltar a
adormecer, envolta num conforto estranho, muito diferente daquele que conhecia
do seu lar, mas, ao mesmo tempo… Uma sensação de calor familiar.
–
Não temas, criança. Eu cuidarei de ti…
Nessa
mesma noite, a Tinkatink sonhou que derrubava com um único soco a grande e
temível ave de penas negras e olhos de fogo.
E mais
importante que isso, arrancara-lhe a armadura e recuperava o seu precioso
martelo de metal polido.
A Fada, o Corvo, e o Baleeiro










































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